• Ariel Farias

ÁFRICA DO SUL 5º Dia - Um dia em Johanesburgo (18/11/2017)

Sendo o nosso único dia "cheio" em Johanesburgo, e como deixamos para conhecer o Soweto no fim da viagem quando regressássemos à Johanesburgo, tínhamos como roteiro fazer a visita ao Museu do Apartheid pela manhã e, no início da tarde, fazer um Free Walking Tour que saia em frente à Park Station. Tomamos nosso café da manhã no hostel então com as coisas que tínhamos comprado no dia anterior no Carlton Center e tratamos de descobrir como chegar no Museu do Apartheid, que fica a uns 8 km do centro numa zona conhecida como "Gold Reef". Como o pessoal do hostel novamente nos meteu um pavor dizendo que não era para nós andarmos por aí se não fosse de UBER e, vendo que o preço era bom, fomos de UBER até lá.

O Museu do Apartheid (Apartheid Museum), é o principal museu da África do Sul e parada obrigatória para quem visita Johanesburgo. Como o nome sugere, se dedica a expor uma das maiores tragédias da humanidade, sendo aqueles locais difíceis de digerir e que destroem qualquer um. Locais que considero de suma importância para nos mostrar o quão baixo o ser humano pode chegar e para que não corramos o risco de repetir os erros da história (parece não estar dando muito certo essa parte ultimamente).
Museu do Apartheid

Dito isso, se você não sair devastado deste museu, preocupe-se, você pode ser um psicopata.

Chegando no museu, logo na entrada já temos uma amostra de como era a vida na África do Sul durante o Apartheid. No ingresso que te dão há uma "classificação": brancos ou não-brancos, que indica qual porta você pode usar para entrar no museu.

Entrada do museu do apartheid


Nessa primeira entradinha também, ficam expostas réplicas de várias das carteiras de identidade que foram introduzidas no país que destacavam a classificação racial do indivíduo e também alguns discursos políticos que endossavam o regime, todos baseados na suposta inferioridade das outras raças diante da raça branca e inclusive contando com o apoio irrestrito da igreja católica para espalhar tal ideologia (que novidade não?). Também há quadros com as explicações de como eram feitas essas classificações como por exemplo a medição dos narizes, olhos, além do ultrajante "teste do lápis" (pra quem não sabe o que é isso, procura aí no google).

Explicação (se é que é possível chamar assim) das "leis raciais" e exposição das carteiras de identidades de raça


A partir daí, nas áreas internas é proibido tirar fotos, o que de certa forma é até bom porque as imagens e vídeos são muito chocantes.

O museu é bem no estilo que eu gosto, que possui salas numeradas e em ordem cronológica, fazendo que tu possa percorrer todo ele de forma linear e sem se perder ou perder de ver nada. Relata toda a história do apartheid desde o início ao fim do regime com documentos, fotos, vídeos e objetos históricos.

O regime "apartheid" teve início oficialmente em 1948, com a vitória nas eleições do Partido Reunido Nacional, partido segregacionista da etnia afrikaneer, etnia de origem holandesa da África do Sul. No entanto, desde 1900, os ingleses, que haviam vencido os holandeses na guerra dos boêres e dominavam o país nesse período, já vinham colocando em prática diversas leis segregacionistas que retiravam qualquer direito dos negros, maioria no país.

Mas é em 1948, quando os afrikaneers tomam o poder com a campanha eleitoral "apartheid", palavra que significa "separação" na língua afrikaneer, que o regime passa a vigorar oficialmente no país "aperfeiçoando" o racismo de forma mais violenta e controladora com a classificação e divisão da população em "brancos" e "não brancos", delimitando os locais em que cada raça poderia circular e a quais bens e serviços cada uma poderia ter acesso, proibindo também qualquer casamento ou relação interpessoal entre as raças.

Já em 1950 começam os movimentos de resistência liderados por um tal de "Nelson Mandela" e o seu partido Congresso Nacional Africano (CNA), partido liberal que hoje no Brasil estaria sendo taxado de "comunista". Há uma seção no museu destinada especificamente ao partido, com documentos, bandeiras e símbolos, bem legal.

Adentrando o museu, chegamos numa parte dedicada às manifestações e protestos realizados pela população contra o regime, todas reprimidas violentamente. Nessa seção são exibidos vídeos e fotos perturbadoras, com destaque para o massacre de Sharpeville, protesto pacífico organizado pelo CNA no bairro de mesmo nome em 1960 que terminou com a morte de 69 pessoas negras e mais dezenas de presos e feridos das formas mais perversas possíveis. Essa parte do museu é muito forte, e é preciso parar para respirar um ar e tomar uma água para conseguir seguir em frente.

Achando que o pior já tinha passado, encontramos outra seção tão chocante quanto: uma ala dedicada à BOSS, a polícia criada nos anos 1960 especialmente dedicada à repressão, uma espécie de DOPS sul africano.

Após o massacre de Sharpeville e a repercussão mundial negativa gerada para o país, a solução encontrada pelo governo foi de aumento da repressão. O CNA foi considerado ilegal assim como qualquer tipo de manifestação sendo o partido dissolvido e todos os seus líderes presos, entre eles o nosso Nelson Mandela, que permaneceu preso até 1991. Nesta esteira, também foi criado o Departamento de Segurança do Estado da África do Sul (BOSS, sigla em inglês), uma polícia especializada em reprimir atos políticos e considerados subversivos com delegacias e celas espalhadas pelo país.

Nessa seção do museu, as exposições são realizadas em salas que simulam as celas de algumas dessas prisões, além das salas de interrogatório (leia-se: salas de "tortura") com fotos e histórias igualmente nauseantes. Por ali também fica exposto um dos carros blindados que eram utilizados para adentrar nas Townships e reprimir a população, um dos mais famosos símbolos materiais do regime. Carro esse que é bem semelhante ao nosso "caveirão" aqui do Brasil, inclusive dizem que o modelo sul africano serviu de inspiração para o nosso aqui (a utilidade dele, matar corpos negros, nós sabemos que é a mesma). Mas uma das seções que mais me chamou a atenção nesta parte do museu é sobre Steve Biko, ativista anti-apartheid líder do movimento estudantil que encabeçou diversas ações e manifestações contra o regime, tendo sido morto na prisão em 1977. No museu é exibida uma simulação da cela onde ele foi mantido e as diversas torturas a que foi submetido. Pelo seu papel na luta contra o Apartheid, acredito que ele tenha sido ainda mais importante do que o próprio Nelson Mandela, mas não é tão reconhecido mundialmente (há um filme sobre a história dele chamado "Cry Freedom", com Denzel Washington, que ainda não assisti). Inclusive o próprio Mandela em um de seus discursos concorrendo a presidência disse que, se Biko não tivesse sido assassinado, o Apartheid já teria terminado muito antes.

Mas o mais triste mesmo é a seção que fala sobre o fim do Apartheid e perceber que, mesmo com todas as manifestações e pessoas que morreram lutando contra esse regime maligno, o Apartheid, que assim como qualquer regime fascista é o resultado inevitável do capitalismo financeiro, só acabou mesmo porque a África do Sul deixou de ser um país atrativo economicamente. Em outras palavras, se o mercado financeiro mundial ainda estivesse lucrando com o racismo legalizado na África do Sul, ele ainda estaria lá até hoje, se sustentando em cima de cadáveres negros. Ocorre que, com uma maior exposição da mídia para a situação do país, a partir dos anos 1970 a ONU até tentou impor um bloqueio econômico à África do Sul mas, um país com grande reserva de ouro e diamantes e mão-de-obra barata (semi-escrava), pouco foi a adesão a este bloqueio. Pelo contrário, muitas empresas multinacionais viram na África do Sul e sua mão de obra escrava uma ótima oportunidade para obter grandes lucros. Somente nos anos 1980, com o enfraquecimento da economia do país após o saque de quase todas suas riquezas foi que os países começaram a cortar relações comerciais com a África do Sul, sob o pretexto de serem "contra o apartheid" (só agora né?), o que tornou insustentável a manutenção do regime. Curiosamente, o último país a aderir ao bloqueio econômico foi a nossa vizinha Argentina! Sendo assim, no final dos anos 1980, o presidente eleito em 1989, De Klerk, começou a transição rumo ao fim do apartheid. Libertou Mandela e pôs fim à proibição dos partidos de oposição, entre eles o CNA. Em 1992 a população (somente brancos podiam votar) foi chamada às urnas para um plebiscito para decidir sobre a continuidade ou não do apartheid e o "não" venceu com uma pequena margem de 68% dos votos válidos. Mais tarde, em 1994, a eleição de Nelson Mandela como presidente na primeira eleição em que negros puderam votar, marcou definitivamente o fim do Apartheid como lei e como regime político, embora como já comentado, ainda hoje a herança dos anos de segregação esteja viva e presente em todo o país.

E por falar em Mandela, uma das alas mais procuradas do Museu é justamente a dedicada a esta figura histórica, com informações, fatos sobre sua vida e os eventos que celebram o Mandela Day, dia internacional dedicado à Nelson Mandela que ocorre todo ano no dia 18 de julho. Como presidente, existem muitas críticas ao seu desempenho, principalmente vinda de seus apoiadores, pois, mesmo que o CNA nunca tenha sido um partido de esquerda propriamente dito, este optou por um caminho conciliador, na tentativa de agradar tanto brancos como negros sul africanos. Seu governo foi responsável por diversas políticas sociais que foram importantes na melhoria da qualidade de vida da população negra e pobre do país, mas ao mesmo tempo foram feitas diversas concessões ao mercado, enriquecendo mais ainda as grandes corporações sul africanas, não causando uma ruptura com o sistema financeiro, o que era tão esperado pelos seus apoiadores. Algo parecido aos governos Lula e Mujica, aqui na América do Sul, para dar um exemplo. Essa parte do museu é uma das poucas que, como possui uma área externa, dá pra tirar fotos, e aproveitamos para registrar algumas.

Exposição Nelson Mandela


Outra exposição que fica na área externa do Museu são os "Pilares da Constituição", que homenageiam a nova constituição do país promulgada em 1996 que, segundo o museu, "é a constituição que mais garante direitos iguais para todos em todo o mundo". São diversas obras de arte moderna espalhadas pelo pátio, entre elas uma que consiste em pilares com fotos de pessoas das mais diversas raças como se estivessem caminhando, chamada de "The Journey".

Parte externa do museu


Essa exposição tem como propósito propagandear que a África do Sul é um país formado pelos mais diversos povos e raças e que todos são igualmente importantes para o país, o que lhe rendeu a alcunha de "Rainbow Nation" (nação arco-íris), o que, pela herança do apartheid presenciada no dia-a-dia e os ataques xenofóbicos constantes, é uma realidade que ainda está muito distante.

Por último, na parte externa ainda, fica um terraço com uma bonita vista para a região e também uma exposição dedicada a mineração de ouro e pedras preciosas. O Museu do Apartheid, assim como todo este bairro, foi construído no exato local onde antes havia uma importante mina de extração de ouro (por isso o nome Gold Reef). Inclusive o prédio do museu era antigamente uma fábrica que fazia parte do complexo das escavações. De certa forma é um local bastante apropriado, visto ser a descoberta do ouro pelos colonizadores o principal responsável pelo Apartheid.

Terraço do museu


Destruídos emocionalmente, comemos qualquer coisa na cafeteria que tinha por lá para se recompormos e encerramos nossa visita ao Museu do Apartheid, outro daqueles lugares que todo mundo deveria conhecer antes de morrer (mas é bom se preparar psicologicamente antes). Interessante ver como a África do Sul expõe de forma bastante crua sua história, por mais tenebrosa que seja, como que para deixar bem claro que foi sim um regime terrível e para que ninguém tente reescrevê-la "por outro ponto de vista" ou escondê-la, como tem acontecido aqui no Brasil onde temos pessoas que insistem em dizer que "não foi ditadura", "não houve golpe" ou "os portugueses nem pisavam na África", além de outros absurdos.

Sala final do Museu do Apartheid onde já é permitido fotografar

É uma visita que leva bastante tempo e o bom é não reservar nada para o mesmo dia, mas como nós só tínhamos um dia na cidade, queríamos ainda fazer o Free Walking Tour às 13h. O problema é que saímos do museu já era quase 13h e, não conseguimos achar nenhum wi-fi para poder chamar um UBER. Tentamos no museu, na cafeteria e nada. Fomos dar uma volta na região ver se achávamos algum lugar com wi-fi ou algum meio de pelo menos voltar pro hostel.

Em frente ao museu ficam duas atrações turísticas bem conhecidas também na cidade: o Gold Reef City Theme Park, um parque de diversões bem grande estilo Beto Carrero cujo tema principal são as minerações e inclusive uma das principais atrações é um "tour da corrida do ouro", que inclui a descida de elevador 75 metros no subsolo para dentro de uma mina de ouro de verdade (hoje desativada, é claro), e o Gold Reef City Casino, um cassino hotel pura ostentação.

Já conscientes de que não ia dar tempo de fazer o free walking, fomos em direção ao parque ver se poderíamos pelo menos entrar para dar uma olhada sem ter que pagar ingresso ou então se tinha algum wi-fi na bilheteria e não conseguimos nenhum dos dois.

Entrada do Gold Reef City Theme Park

Já pensando em parar qualquer pessoa na rua e pedir para chamar um UBER pra nós, vimos passando aqueles ônibus turísticos de dois andares do tipo City Sightseeing ou Hop-on-Hop-off e pensamos, por que não? Além de conhecer toda a cidade, ainda possuía uma parada no Carlton Center, podendo ser usado como transporte de volta pro hostel. Pra quem não conhece, esses ônibus são típicos de cidades turísticas ou até não tão turísticas assim (Porto Alegre tem um inclusive). Ele passa por vários pontos turísticos da cidade e no caminho auto-falantes vão contando sobre a história e curiosidades da mesma. A questão de descer e subir nas paradas dos pontos turísticos depende de cidade pra cidade. Esse de Joburg por exemplo, com o passe de um dia tu pode descer em qualquer parada e subir em qualquer parada quantas vezes quiser no período de 24 horas. Não costumamos fazer esse tipo de passeio nas cidades que visitamos, não porque somos contra ou nada do tipo, é porque normalmente é bem caro mesmo hehehe, além de que é sempre muito mais divertido e enriquecedor usar o transporte público para se locomover.

Decisão tomada, fomos descobrir como pegar o ônibus, comprar o ticket e etc. Na parada em frente ao Apartheid Museum, um pessoal nos informou que havia um guichê de venda dentro do Golden Reef City Casino. Como o ônibus estava vindo bem na hora, corremos pro luxuoso Cassino, ainda tivemos que pagar uns Rands para entrar dentro do estacionamento atrás da porcaria do guichê de vendas do bilhete do ônibus. Depois acabamos descobrindo com o motora que dá pra parar o ônibus em qualquer parada e comprar o bilhete na hora com o motorista, ou seja, gastamos dinheiro à toa para entrar no cassino... Pelo menos deu para conferir os suntuosos jardins e fontes do Cassino, realmente muito chiques!

O Cassino ostentação Gold Reef City


Pagamos 150 Rands por pessoa o passe de um dia. Já mais tranquilos agora com o transporte garantido, começamos o passeio bem legal com o ônibus turístico. Junto com o bilhete você ganha um fone de ouvido que pode ligar no banco para escutar as histórias da cidade em vários idiomas, inclusive português.

Turistando!


Logo no início do passeio, pegamos a auto-estrada que fornece a vista mais icônica do skyline de Johanesburgo, com os prédios altos do centro à vista, além da Hillbrow Tower.

Skyline mais famoso de Johanesburgo

Do outro lado da estrada, o Estádio Soccer City (hoje renomeado para FNB Stadium), maior estádio do continente e um dos estádios com a fachada mais bonita do mundo, reformada para a Copa do Mundo de 2010 imitando uma cerâmica típica sul africana. Infelizmente as visitas ao estádio ocorrem somente nas quintas-feiras, o que não foi nosso caso, mas está na nossa lista de prioridades para a próxima vez que visitarmos Johanesburgo: estarmos na cidade numa quinta-feira.

Também ao fundo, ao redor do estádio, os característicos montes de extração de ouro que cercam a cidade. Nos alto falantes do ônibus turístico, fala-se da existência improvável de Johanesburgo. Situada numa região à quase 2.000 metros acima do nível do mar, com clima seco e sem nenhuma fonte de água próxima, era uma cidade que não era nem para existir, mas graças a descoberta do ouro não só ocorreu seu povoamento mas também fez ela se tornar uma das maiores cidades urbanas da África.

Em seguida no passeio, entramos no bairro de Newtown, um bairro bem legal e importante da cidade que vale a pena passar um dia por lá. Faz parte do centro que está sendo revitalizado e conta com vários museus e atrações, sendo conhecido como o distrito cultural da cidade. É lá que fica, junto com o Market Theatre, o Museu da África, museu enorme inaugurado em 1994, como uma das "celebrações" do fim do Apartheid, no antigo prédio histórico do mercadão da cidade e que conta a história de Johanesburgo com coleções que vão desde à era pré-histórica até os dias atuais. Além do Museu da África, a região conta também, entre outros, com o Sci-Bono Discovery Centre, um museu tecnológico estilo o Parque Explora de Medellín ou o Museu da PUC de Porto Alegre e o Workers Museum, museu que retrata a história dos trabalhadores imigrantes da África do Sul, construído num local que servia de alojamento para estes. Mas o destaque e a parada do ônibus ali ocorre no SAB World of Beer, o museu da cerveja de Johanesburgo.

Como se sabe, a África do Sul é muito famosa não só pelos seus vinhos mas também suas cervejas estão sempre figurando entre as melhores do mundo.

Este museu, que conta com exposições muito modernas que inclusive já renderam a ele por duas vezes o título de melhor atração turística do país, também foi inaugurado nos anos 1990 em virtude do fim do Apartheid e conta com orgulho não só a história das primeiras fabricações de cerveja no país mas da cerveja no mundo.

Prédios de Newtown. Na última foto, a fachada da SAB World of Beer


Ainda sobre Newtown, é lá que se localiza o icônico prédio com a fachada da propaganda do Johnny Walker que dá pra ver de qualquer lugar da cidade e a Diagonal Street, uma avenida só para pedestres onde ocorre diariamente uma famosa feira de rua.

De Newtown, atravessando por cima das linhas férreas a ponte Mandela Bridge, uma das tantas homenagens ao líder Nelson Mandela que existem pela cidade, chega-se no bairro Braamfontein.

Mandela Bridge


Por esta região também, antes de atravessar a ponte, ficam diversos terminais de vans, conhecidos como Taxi Ranks, todas com milhares de vans estacionadas desordenadamente num cenário de verdadeiro caos. Entre estes passamos pela Bree Taxi Rank que é considerada uma das mais "organizadas", um prédio com 3 andares abarrotado de vans onde antes do fim do Apartheid ficava um shopping só de brancos. Acho que nem os locais se entendem nessa muvuca toda de vans.

O bairro Braamfontein, o qual já comentei anteriormente, é um dos bairros que passam por um processo de gentrificação "queridinhos" da zona central, bastante limpo e bem movimentado com alguma vida noturna bem "descolada" e muitas lojas e fast-foods nas suas principais ruas. Rola também nos fins de semana umas feiras gastronômicas de rua. Achamos a região bem simpática e já que pode-se descer e subir quantas vezes quiser do ônibus, ficamos de descer ali para dar uma volta depois que terminasse o city tour.

De Braamfontein o ônibus segue para o que seria o seu ponto de início do passeio, o Constitution Hill, considerada a atração turística mais importante da cidade do ponto de vista histórico, que, assim como o Museu do Apartheid são aqueles lugares obrigatórios para se conhecer na cidade.

Constitution Hill é um complexo de fortificações cujo início data do fim do século XIX com a construção do Old Fort, fortaleza criada para julgar e prender invasores britânicos no país. Com o passar dos anos e o advento do Apartheid, mais e mais edificações de defesa e prisões foram sendo construídas no complexo, se tornando um símbolo da opressão e da violação de direitos humanos no país, abrigando renomados presos políticos como Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Joe Slovo, Albertina Sisulu, entre outros.

Com o fim do Apartheid, simbolicamente Nelson Mandela escolheu esse lugar para ser o tribunal constitucional da África do Sul em 1995, sendo promulgada lá a "Constituição Democrática" do país em 1996.

Uma das esquinas do gigantesco Constitution Hill

Hoje o lugar é um museu que oferece diversos tipos de tours onde você pode visitar as celas conservadas dos presos políticos, os fortes e o tribunal constitucional, além de contar com exposições de arte, sendo um passeio de dia inteiro assim como o Museu do Apartheid, e bem "pesado" também.

É na parada do ônibus turístico em frente ao Constitution Hill que pode-se fazer a transição para a linha verde do ônibus, linha secundária que leva aos bairros do norte como Sandton e Rosebank, o que pode ser feito com o mesmo bilhete único comprado do passeio de um dia. Como tem essa questão de ser o "fim da linha" e a transição para a linha verde, ficamos um tempinho parados ali esperando o ônibus recomeçar o passeio. Também ali, pagando um valor a mais, pode-se fazer um passeio de duas horas pelo Soweto em vans auxiliares do ônibus City Sightseeing. Como iríamos nos hospedar no Soweto quando voltássemos para Johanesburgo no fim da viagem, não utilizamos.

Continuando o city tour, antes de seguir em direção sul, passamos rapidamente por Hillbrow, um bairro que, assim como todo o centro, já foi um lugar importante economicamente na cidade e que foi abandonado com o fim do Apartheid, sendo ocupado posteriormente quase que exclusivamente por imigrantes estrangeiros que não tinham para onde ir, ficando conhecido então como um "bairro de imigrantes", principal ponto dos ataques xenofóbicos do país e considerado hoje o bairro mais perigoso de Johanesburgo.

E se a CBD já é aquele lugar altamente recomendado para que os turistas evitem, Hillbrow então chega a ser um lugar meio que "proibido" para turistas. Dizem inclusive que se um turista é visto andando sozinho por lá os próprios moradores se encarregam rapidamente de escoltá-lo pra fora antes que algo aconteça com ele. O estranho é que olhando de fora parece um bairro comercial como qualquer outro de qualquer grande cidade. Mas o alto-falante do ônibus turístico deixa bem claro: é um bairro culturalmente interessante, mas para visitá-lo, apenas com tour guiado ou acompanhado de um morador.

A outrora "opulência" de Hillbrow se verifica por grandes edificações como a Hillbrow Tower, torre de comunicações que já foi o ponto mais alto da cidade e que possuía um restaurante panorâmico no topo muito frequentado por turistas e que hoje está fechado por razões de segurança e a Ponte City Apartments, edifício "tubular" icônico que se enxerga de quase todo lugar em Johanesburgo. Construído para ser um condomínio de luxo, foi tomado por gangues nos anos 1990 se tornando um lugar de criminalidade. Cogitou-se inclusive transformar o lugar numa prisão, até que nos anos 2000 iniciaram-se projetos de reformas pontuais e hoje o prédio é um condomínio residencial com apartamentos populares.

Também é pros lados de Hillbrow que fica o histórico estádio Ellis Park. Estádio que foi sede da copa de 2010 mas que se tornou histórico por ter sediado o campeonato mundial de Rugby em 1995, vencido pela África do Sul, sendo a entrega do troféu realizada por Nelson Mandela ao capitão branco da seleção, Pienaar (lembrando que rugby era um esporte exclusivo para brancos na África do Sul) neste estádio, um dos símbolos utilizados pelo presidente como demonstração de que o Apartheid havia sido superado (este episódio foi retratado no filme "Invictus" com Morgan Freeman).

Depois da rápida passadinha por Hillbrow, seguimos em direção ao Minning District. Antes porém, passamos pela Park Station, estação central de trens e ônibus de Johanesburgo e também ponto de encontro do Free Walking Tour da cidade. Lugar gigantesco, lembra bastante a Central do Brasil no Rio de Janeiro, pois praticamente todos os transportes do país passam pela Park Station, sendo um dos lugares com a maior circulação de gente da África. Ao lado da Park Station temos a antiga estação ferroviária da cidade, que hoje está desativada e ficaram somente suas ruínas. Ela foi construída por qual motivo? Como tudo na Johanesburgo dos séculos passados, claro que por causa do ouro né! Para escoar as pedras preciosas para o resto do continente.

Antiga estação de trem de Johanesburgo


Quase todos os lugares de Johanesburgo possuem uma história, na maioria das vezes triste. Quase em frente à Park Station temos mais um prédio que é um símbolo do terror do Apartheid, o Departamento de identificação, lugar onde eram realizados operações grotescas para aferir a raça das pessoas (lembram do teste do lápis?) e emitidos os documentos de identificação raciais. Hoje ele continua sendo o departamento de identificação da cidade, mas um departamento "normal", digamos assim (inclusive o atendimento tem uma ótima avaliação no google)...

Chegamos então no Minning District, uma zona que fica entre Newtown e a CBD e que concentra a sede dos escritórios de algumas das maiores companhias mineradoras do país e do mundo (por isso o nome). Ali antigamente era onde se localizava a bolsa de valores do país, sendo uma espécie de Wall Street africana (inclusive tem uma estátua restaurada de um touro por lá). Hoje, como parte da renovação da área central, foi "tomado" pelas companhias mineradoras, se tornando uma região bem "ostentação", com cafés chiques e intervenções artísticas pelas suas ruas, além de diversos museus sobre a história da mineração. Bem no centro do complexo de prédios, fica um moinho de extração de pedras restaurado que dizem ser um dos primeiros utilizados para a extração de ouro na cidade que é bastante famoso e principal símbolo da Minning District.

Minning District e seu icônico moinho


O curioso é que, saindo deste bairro podre de chique, apenas uma quadra em direção leste, já estamos no centro da CBD, atravessando o centro da Gandhi Square, um mundo completamente diferente. A Gandhi Square é uma praça nomeada em homenagem à Mahatma Gandhi e que possui uma estátua dele.

Para quem não sabe, foi na África do Sul que o jovem Gandhi, tendo sido chamado para trabalhar como advogado numa grande empresa, sentiu na pele pela primeira vez a injustiça dos homens ao ser proibido de andar na primeira classe de um trem por não ser branco. A partir daí teve início sua vida como ativista na luta por igualdade e justiça e o desenvolvimento de sua técnica de resistência não-violenta, tendo permanecido por 21 anos no país antes de retornar à Índia e se tornar uma das maiores personalidades da história.

Um dos motivos de termos escolhido nosso hostel era justamente ficar perto desta praça mas, infelizmente, pelo nosso curtíssimo tempo em Jozi, só conseguimos conhecê-la mesmo do topo do nosso ônibus turístico.

Estátua de Gandhi na Gandhi Square

Passando o Carlton Center, antes de retornar ao Museu do Apartheid e o Gold Reef Cassino, o ônibus segue ainda pra uma região mais distante ao sul, onde fica o James Hall Transport Museum, considerado o maior museu de transportes da África e que conta com os mais diversos tipos de transportes (carros, ônibus bondes) utilizados ao longo da história do continente. Nessa parte da cidade também foi onde tivemos nosso primeiro "contato" com sul africanos brancos, ao passar por um bairro bastante residencial.

Terminada a volta completa com o ônibus turístico, conforme tínhamos decidido, descemos em Braamfontein para dar uma volta. Aproveitamos para comer num dos diversos fast-foods que tem por ali e passamos numa liquor store comprar a cerveja para o Braai à noite, nos precavendo caso não conseguíssemos pegar o Pic n Pay do Carlton Center aberto. A essa hora, o bairro estava bem movimentado, bastante pessoal com a camisa do Kaiser Chiefs, um dos dois principais times de Johanesburgo que junto com o Orlando Pirates formam uma das maiores rivalidades do mundo do futebol, seguindo em uma mesma direção. De certo estava tendo ou iria ter algum jogo este dia no Ellis Park. Braamfontein é um bairro legal e bom lugar para se hospedar, só achamos ruim na região que haviam muitos pedintes. Vendo que éramos turistas então, era como se fossemos uns trocados ambulantes.

Como tudo na África do Sul, o último ônibus turístico parte bem cedo, às 17h. Como já era perto desse horário, não deu muito tempo de conhecer o bairro mais a fundo e já tivemos que correr para a parada para conseguir pegar o último ônibus. Fizemos o tour todo novamente, já quase decorando o áudio guia e descemos então no Carlton Center. Na hora de descer, muito engraçado foi o espanto do motorista e o guia do ônibus, que gritaram para nós apavorados: "esse é o último ônibus, não desçam que não vai passar de novo", e fizeram uma cara de incrédulos e perguntaram ainda umas várias vezes se tínhamos certeza quando dissemos que nosso hostel ficava ali pela região. Conversando com um motorista de UBER uns dias depois, ele falou que éramos loucos de se hospedar nos arredores do Carlton Center, que nem os motoristas de UBER iam pra lá com medo de serem assaltados. Antes de retornar pro hostel ainda passamos no subsolo do shopping do Carlton Center para usar o banheiro. A maioria das lojas já estava fechando mas ali no subsolo havia um bar com karaokê que estava bombando e até deu vontade de sentar para tomar uma coisinha, mas já tínhamos combinado de participar do Braai com o pessoal do hostel.

Chegando no hostel, subimos direto pro terraço achando que ia estar rolando uma alta festa com Braai mas, só tinha os atendentes do hostel, os colegas que havíamos conhecido no dia anterior e um "dj", total fracasso.

A "festa" do hostel

Nossos colegas, querendo que aproveitássemos nossa última noite em Jozi, tentaram nos convencer a escapar daquela furada nos indicando duas opções de regiões para ir: Mellville ou Maboneng.

Mellville, que fica ao norte próximo aos bairros "ricos", é considerado um bairro boêmio de Johanesburgo, comparado em alguns blogs à Vila Madalena em São Paulo. Só que em bemmm menor escala, já que os bares e o "fervo" se concentram em apenas uma rua, a 7th Street, e o movimento à noite nem se compara ao que estamos acostumados no Brasil a chamar de "bairro boêmio".

Já Maboneng, falei dele já, é a região queridinha de Johanesburgo, muito utilizada como exemplo da reocupação de espaços urbanos. Com o fim do Apartheid foi a região mais abandonada do centro, pois possuía apenas industrias que foram todas fechadas ou realocadas para o norte da cidade, transformando a região numa terra sem lei. Em 2010, Jonathan Liebemaunn, um empresário imobiliário cheio da grana resolveu comprar os barracões abandonados e transformar o local em um espaço de artes, cultura e gastronomia fazendo de Maboneng hoje o reduto hipster de Johanesburgo e uma das regiões mais seguras da cidade, contando com um segurança em cada esquina.

Mas como estávamos cansados já do dia inteiro passeando, já tínhamos pago 70 Rands para participar do Braai, e também pra dar um "apoio moral" pro staff do hostel que até agora tinham sido muito legais com a gente, resolvemos ficar e participar. E participar participar mesmo. Até aprendemos e ajudamos a fazer o pap, misturando aquela goma pesada desengonçadamente enquanto o carinha do hostel tirava o maior sarro.

Misturando o pap

Sobre a comida, a carne daquele jeito: uns bifes magrinhos que eles deixavam tostando nas labaredas mesmo, carne ficava parecendo um carvão de tão passada.

Nosso churrasco é muito melhor...

Em compensação, comemos de acompanhamento um chakalaka delicioso!

Chakalaka é uma comida típica sul africana que, junto com o pap, é um acompanhamento, principalmente para Braais. Trata-se de uma mistura de feijão branco com legumes como tomate e cenoura além de curry e pimenta, uma delícia! Inclusive quando voltamos para o Brasil já fizemos a receita algumas vezes para matar a saudade.

O resto da noite ficamos por ali conversando e curtindo com o pessoal enquanto o dj (que também era o assador) tentava inutilmente animar a festa.

Curtindo a última noite em Johanesburgo


Quando acabou nossa cerveja ainda descemos lá no bar/boteco que o staff do hostel tinha nos levado no outro dia para comprar mais uns latões, dessa vez sozinhos. Apesar de ser a menos de uma quadra de distância do hostel e o pessoal do bar já nos conhecer, percorremos o curto trajeto cagados de medo por estarmos a pé na CBD à noite.

Ficamos até bem tarde da noite, depois que todos os hóspedes já tinham se recolhido, dançando e curtindo com o pessoal staff do hostel, e assim nos despedimos temporariamente de Johanesburgo. No outro dia iniciaríamos nossa jornada de trem rumo à Cape Town. Nossos amigos sul africanos do hostel ainda nos deram uma dica de Cape Town: disseram que lá iriam gostar mais de nós por sermos brancos, mas que nós, tirando as paisagens estonteantes, não iríamos gostar tanto de lá por sermos mais simples e não metidos à besta hehehe.

Se hospedar no tão mal falado CBD acabou sendo uma grande experiência, conhecemos muita gente interessante, fomos muito bem tratados e acho que foi um dos hostels no exterior que mais interagimos com outros hóspedes e nos sentimos em casa.

Você deve ter percebido, pelo tamanho destes dois últimos posts, como Johanesburgo me marcou. Como uma cidade, que nem era pra existir devido sua localização nada atrativa, acabou se tornando um dos maiores centros urbanos do mundo? Até hoje ela está no topo do ranking das cidades mais "exóticas" que conheci (só perde pra Brasília) e exerce em mim um fascínio enigmático. Se fosse hoje, acho (só acho) que não me deixaria "contaminar" tanto pelo terrorismo que todos nos colocam sobre a cidade e exploraria mais ela a pé (sem sair com muitos pertences claro), me aventuraria nas misteriosas vans, procuraria alguém para fazer um tour em Hillbrow, enfim, conheceria Johanesburgo mais à fundo, do jeito que ela merece.

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