• Ariel Farias

SUDESTE ASIÁTICO 8º Dia - Batendo um papo com um monge sobre budismo (11/11/2016)

Teoricamente, o período das monções na Tailândia se encerra no mês de outubro, porém em novembro, durante nossa passagem por lá, praticamente todo dia ocorreu pelo menos uma pancada de chuva e, neste dia não foi diferente.

Acordamos e o dia já estava com uma garoa bem fininha na rua. Tomamos café da manhã no hostel mesmo, que era bem barato (pão, omelete e umas verduras) e fomos em direção ao Old Quarter conhecer o templo Wat Chedi Luang.

Este templo, que fica praticamente no centro da cidade murada, é na verdade um complexo que compreende em seu perímetro, três templos principais (e vários anexos) e, no seu centro, um panteão belíssimo (chamado de Chedi), cheio de esculturas de serpentes e elefantes. Este Chedi foi parcialmente destruído por um terremoto em 1545 e suas ruínas são mantidas conservadas até hoje, sendo a principal atração turística do lugar. Era aqui também o lugar original do Buda Esmeralda, considerada a principal estátua de Buda da Tailândia (aquela que eu não achei grande coisa) e que hoje se encontra no Gran Palace de Bangkok.

Mas o que mais me deixou com vontade de conhecer este templo é que lá acontece o "Monk Chat": um espaço com mesas e cadeiras em que os monges ficam ali exclusivamente para conversar à vontade com os visitantes sobre budismo (ou qualquer assunto), sendo essa uma forma de eles ensinarem os fundamentos da religião e ao mesmo tempo praticarem inglês com os turistas. Uma oportunidade de ouro para quem quer conhecer mais a fundo sobre o budismo "na raíz".

Chegando lá, pagamos 80 baths a entrada e o primeiro templo que fomos (Chiang Mai Pillar City Shrine), que fica mais próximo da entrada, tinha uma peculiaridade: não é permitido a entrada de mulheres. O motivo: porque mulheres menstruam e portanto são impuras, correndo o risco de "pecaminar" o templo com seu sangue sujo (pouco machista hein?). Entrei meio contrariado pra dar uma olhada no que que era "tão sagrado" assim, enquanto a Juju ficou esperando lá fora.

Juju indignada por não puder entrar no templo

E o templo é bem bonito, com suas paredes todas decoradas com gravuras ilustrando a história do Buda e no seu centro uma estátua do Buda em pé dentro de um reservatório de vidro.


Lindos desenhos dentro do templo contando a história do Buda


Depois seguimos para o templo principal (esse a Juju pode entrar), que possui uma estátua do Buda também em pé bem bonita folhada a ouro, acompanhado de duas estátuas que representam monges importantes do budismo, uma de cada lado (deve ser o equivalente aos santos no cristianismo). E aqui vai uma dica para visitar este complexo: como são muitos templos e em cada um tem que se tirar o sapato para entrar, o melhor é vir de chinelos para facilitar o tira e põe (que foi o que fizemos), ainda mais que o dia estava bem úmido e a área que você tem que deixar os calçados normalmente é descoberta.

Dentro do Templo principal do Wat Chedi Luang

A entrada do templo principal também conta com belíssimas esculturas coloridas de animais e uma foto em homenagem ao rei recém falecido.

Belíssimas esculturas em frente ao Templo Principal do Wat Chedi Luang, com detalhes para a homenagem ao rei Bhumibol ao fundo


Dentro deste templo também aproveitei para fazer uma simpatia que tem ali que dizem ser para dar sorte e prosperidade: no corredor do templo ficam dispostas 12 estátuas em fileira, cada uma representando um signo do horóscopo chinês. Se compra (é lógico, tudo é sempre cobrado nestes templos) uma pequena lâmina de ouro e se cola esta na estátua respectiva do seu signo chinês (no meu caso, colei no porco). Com cada visitante colando um pedacinho no seu respectivo signo, vai se preenchendo assim a estátua até ela ficar toda revestida de ouro.

Fazendo as mandinga: colando a lâmina de ouro na estátua correspondente ao signo do porco

O ruim é que a lâmina vai se soltando pó de ouro nas mãos todas. Passei o resto do dia "dourado".

Depois passamos para admirar o Chedi do templo, abaixo de uma chuva fina.

Este local teve seu início de construção no século 14 pelo rei Saen Muang Ma, com a finalidade de enterrar as cinzas de seu pai, e o projeto inicial era que ele teria 82 metros de altura. Depois de 10 anos de construção o rei morreu e sua viúva continuou o projeto. Quando atingiu 30 metros, um terremoto atingiu a edificação e o monumento foi deixado praticamente intocado desde então.

O Chedi se destaca no meio do complexo, por ser a única edificação "não restaurada ali. Aliás, este é um fato interessante da Tailândia: por lá não tem essa história de que um monumento, por ter sido tombado como patrimônio histórico, não pode ser modificado. A maioria dos templos são todos restaurados, telhas trocadas, pinturas modificadas, claro que sempre mantendo o estilo e o padrão original e tradicional do país.

Chedi principal do Wat Chedi Luang


Partimos então para o Monk Chat. A Juju, já indignada pelo machismo do templo e também porque havia várias regras específicas para mulheres que quisessem participar como: não sentar do mesmo lado que o monge, não tirar foto com o monge, não encostar no monge, etc. Preferiu ficar de fora e foi conhecer a biblioteca que existe dentro do templo. Eu entrei no local, que é um espaço ao ar livre com mesas e bancos de pedra e com uma lona em cima para proteger da chuva, me sentei e logo veio um jovem monge conversar comigo. O menino tinha 17 anos e era bem gente boa, um típico adolescente. Ficamos conversando por mais de uma hora e foi muito enriquecedor saber mais sobre a vida que os monges levam e sobre o budismo em si. Ele me contou que para eles o budismo não é uma religião, e sim uma filosofia de vida que prega o desapego tanto a bens materiais como a qualquer desejo. O próprio fato deles quererem buscar a iluminação (ou seja, virar um Buda), não é aceitável porque também se trataria de desejar algo, e o caminho para a iluminação é justamente negar qualquer desejo do corpo e da mente. Ele me contou sobre a rotina dos monges, de acordar todo dia com o nascer do sol, de pedir doações nas ruas, de orar várias vezes ao dia, das diversas escolas diferentes de budismo, mas que também levam uma vida "normal", frequentando escolas e universidades. Eu perguntei para eles porque todos eles, ou pelo menos a grande maioria, possuíam smartphones, e ele disse que justamente para isso, eles precisam deles para estudar, dar uma "googleada" de vez em quando (e aproveitar para mandar aquele zapzap pros outros monges no grupo do monastério hehehe). Me pareceu que ser monge na Tailândia é tipo participar de grupos de escoteiros aqui no Brasil. Eles podem entrar para um monastério desde pequenos (até os 13 anos tem que ter autorização dos pais) e lá praticam várias atividades, podendo, a qualquer tempo, desistir e voltar para sua casa. Ele me contou que tem alguns monastérios em Chiang Mai que você pode se inscrever para fazer um retiro (por um precinho bem salgado), normalmente de 5 a 10 dias, e que é bem procurado por estrangeiros que buscam paz interior, auto-conhecimento ou só praticar o budismo e sentir como é ser um monge por uns dias. Me indicou também um templo para conhecer, o Wat Chiang Man, que é o templo mais antigo de Chiang Mai e fica ao norte do Old Quarter. Aproveitei para perguntar para ele porque o Chedi era a única edificação não restaurada ali, e eu esperava uma explicação espiritual ou ritualística e ele me diz: "é porque assim fica mais bonito e atrai mais turistas (que coisa hein...).

Já tinha me despedido do meu amigo monge quando ele me puxou e pediu que eu ficasse mais um pouco, porque tinha uns chineses ali atrás de mim que iriam querer falar com ele quando eu me levantasse e ele não estava afim de falar com chineses porque eles não sabem falar inglês direito (meio xenofóbico o guri...). Então ficamos conversando mais um pouco até os chineses irem embora.

Meu amigo monge

Saindo do Wat Chedi Luang, como não tínhamos nada planejado e ainda era cedo, fomos conhecer o templo que o monge indicou dizendo ser o mais antigo de Chiang Mai, o Wat Chiang Man. Fomos costeando os escombros do muro do Old Quarter em direção ao norte e rapidinho chegamos lá.

O templo principal tem a aparência mesmo de bem antigo, com as paredes de madeira, mas dentro é bem "comum" em comparação com os outros que havíamos visitado, valendo a visita mais pelo valor histórico do mesmo do que pelo visual em si. No lado de fora há uma estopa ornamentada com estátuas de elefantes, esta sim de visual único e bem bonito, sendo este meio que o "símbolo" do templo.

Estopa do Wat Chiang Man, o templo mais antigo de Chiang Mai

Quando estávamos ali começou mais uma chuvarada forte, então aproveitamos o templo como abrigo da chuva e também para descansar e meditar um pouco. Neste templo também aconteceu uma coisa engraçada: uma moça veio falar comigo, primeiro perguntou se eu sabia falar inglês. Respondi que sim e então ela começou a falar umas coisas indecifráveis, sei lá em que língua. Respondi para ela: mai kao jai (eu não te entendi em tailandês). Daí ela ficou braba e resmungou: "isso é tailandês, não é inglês, tu não sabe falar inglês", e foi embora. Bem louca hehehe.

Dentro do Templo Wat Chiang Man

Com a chuva dando uma pausa, voltamos para o hostel. Quando chegamos, começou a chover forte novamente, então resolvemos aproveitar o resto da tarde para colocar o sono em dia.

Já noite e com o a chuva dando uma trégua, fomos conhecer o Night Market de Chiang Mai, uma espécie de Khao San Road da cidade (mas bem menos muvucada), que como já comentado, ficava bem próximo do nosso hostel. O agito acontece na rua Changklan, rua essa que abriga na noite diversas barraquinhas de roupas e comidas de rua, tendo também dois mercados principais, o Chiang Mai Night Bazaar e o Ploen Ruedee Night Market.

Changklan Road, a Khao San Road de Chiang Mai

O primeiro é um espaço onde funciona tipo uma miniatura do Mercado Chatuchak, um típico mercado do sudeste asiático que vende de tudo, onde aproveitamos para tomar mais um daqueles sucos deliciosos que tu escolhe a fruta no copo e eles liquidificam ali na hora (tomei um de maracujá com dragon fruit muito bom!) e comprar umas lembrancinhas. Inclusive a Juju comprou uma bolsa de elefantinhos que nos foi útil todo o resto da viagem e de outras que fizemos depois ainda. Sempre naquele esquema de pechinchar até encher o saco. Nos domingos este mercado acontece dentro do Old Quarter e vira o Sunday Night Market. Já o outro mercado, o Ploen Ruedee, esse achamos demais! É tipo uma praça de alimentação, rodeada por Food Trucks (mas com preços muito baratos, bem diferente dos food trucks aqui do Brasil nesse sentido) com comidas de todos os lugares do mundo.

Ploen Ruedee Night Market (na última foto o banheiro do local, sustentável e muito estiloso)


Paramos ali para comer um Cheeseburguer e um Cachorro-Quente por 50 baths cada um (5 reais!) e o bom é que se podia comprar cerveja no 7eleven e levar pra tomar ali sem problema.

O resto da noite ficamos percorrendo a rua e vendo o movimento, inclusive no fim dela foi a primeira vez que nos deparamos com um supermercado grande na Tailândia, o Big C, mas os preços eram iguais ou piores do que os do 7eleven. Gostamos bastante do Night Market de Chiang Mai. Apesar de bem turístico, não é tão "agressivo" (no sentido de um turismo que extrapola), se comparado à Khao San Road, por exemplo, e isso que estávamos num período de bastante movimento na cidade por causa do Festival das Lanternas.






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