• Ariel Farias

SUDESTE ASIÁTICO 14º Dia - Conhecendo as minas terrestres do Camboja (17/11/2016)

Já havíamos combinado no dia anterior com o Phey o transporte de Tuk tuk para visitarmos o museu das minas terrestres e o Templo Beng Meala este dia. Ele ofereceu o mesmo pelo valor de 40 dólares, que nós imediatamente achamos um absurdo mas, como não queríamos sair na rua e ficar negociando com outros tuk tuks, aceitamos, mas não sem antes conseguir um descontinho e fazer por 35. Acontece que esses dois lugares são bem longes mesmo de Siem Reap. Só pra ter uma ideia, somente um do outro é mais de 50 km de distância, o que, com o Tuk tuk que chega no máximo a 40 km/h, só de ir de um para outro iria levar mais de uma hora de viagem. Sendo assim (e depois pesquisando na internet) vimos que o preço era esse mesmo.

Pois bem, acordamos cedo então para se encontrar com ele e seguir rumo a primeira parada do dia: o museu das minas terrestres. No caminho passamos pelo que acredito ser a avenida principal de Siem Reap, pois era toda ornamentada com bandeiras do Camboja e ainda por cima era a única que vimos possuir sinalização de trânsito (semáforos e faixas de segurança) e postes de iluminação pública.

Principal Avenida de Siem Reap

Também passamos pelo prédio onde se vendem os ingressos para o Angkor Wat que, agora de dia, deu pra ver que era bem bonito, em estilo budista.

Prédio onde se compra o ingresso para o Angkor Wat

Demoramos mais ou menos uns 50 minutos para chegar ao museu, que fica a pouco menos de 30 km do nosso hostel e custava 5 dólares a entrada por pessoa, com direito a áudio guia com diversas línguas (inclusive português).

Para quem não sabe, a história desse museu é a seguinte: durante a guerra fria, mais especificamente a guerra do vietnã, o Camboja, na sua região fronteiriça, foi brutalmente bombardeado de forma quase que ininterrupta pelos Estados Unidos e seus aliados (dizem que foi lançado mais bombas pelos EUA aqui do que em toda a segunda guerra) com o objetivo de atingir o exército vietnamita (num raio de destruição que entendiam ser o caminho que Ho Chi Minh estava percorrendo, o Ho Chi Minh Trail). Não preciso dizer que o país foi praticamente dizimado e, com a instabilidade política advinda da destruição causada pelos EUA, abriu-se espaço para um grupo radical tomar o poder através de um golpe de estado, o khmer rouge (khmer vermelho). Este grupo, liderado pelo ditador Pol Pot, que dizia estar implantando um regime comunista no país (mas que de comunista não tinha nada), foi o responsável por um dos maiores genocídios da história da humanidade. Estima-se que um quinto da população cambojana foi assassinada entre 1975 e 1979, época em que o khmer rouge esteve no poder. Mas essa história fica para o próximo post, o que interessa aqui é que, reivindicando a região da fronteira com o Vietnã, o khmer rouge entrou numa guerra sangrenta com este país, sendo que uma das táticas utilizadas nesta guerra era a instalação massiva de minas terrestres nos campos.

A estratégia é a seguinte: se um soldado inimigo morre, o exército inimigo sofrerá apenas uma baixa, agora se ele perde um membro ele TEM que ser resgatado e tratado por seus companheiros, o que gerará muito mais dispêndios para o exército do que uma simples morte. A intenção das minas é justamente essa, já que ela dificilmente mata a pessoa na hora, e sim à machuca gravemente, normalmente arrancando algum membro.

Muitas dessas minas não foram explodidas e não foram mapeadas quando da sua instalação. Dessa forma, existem ainda milhares de minas terrestres ativas espalhadas pelo Camboja, sendo que até hoje, muitas pessoas no interior ou em estradas mais afastadas ainda morrem ou se machucam gravemente em contato com estas (segundo dados do museu, este número à época era de uma pessoa machucada por minas a cada 3 dias, número este que já foi de 3 pessoas por dia), colocando o Camboja como o país mais perigoso do mundo neste quesito.

Ilustração mostrando uma família encontrando os parentes mortos por minas terrestres numa plantação

Mas não é só isso, como as bombas que foram lançadas pelos EUA eram produzidas em alta escala, o que não permitia um controle de qualidade adequado, muitas delas não estouraram quando na hora do seu impacto, estando até hoje espalhadas por todo o interior do Camboja e com alto grau de instabilidade, causando diversas mortes nos campos quando ativadas por acidente. Além disso, o próprio exército americano quando da guerra do Vietnã também foi responsável pela instalação de diversas minas terrestres.

Bombas americanas expostas no museu

Mas o que esse blá blá blá todo tem a ver com o museu? Acontece que um ex-soldado mirim cambojano, que hoje atende pelo nome de Aki Ra (separado assim mesmo) e que lutou tanto ao lado do khmer quanto ao lado dos vietnamitas desde os 11 anos de idade, se tornou durante a guerra um especialista em rastreamento e desarmamento de minas e bombas e, após a guerra, continuou procurando por minas em seu país. Criou uma instituição que auxilia as vítimas de minas e capacita técnicos em desarmamento de bombas para atuarem nos campos do interior cambojano e foi fazendo uma "coleção" pessoal de minas e bombas.

Minas terrestres desativadas encontradas no Camboja por Aki Ra e expostas no museu


Essa coleção mais tarde acabou se transformando neste museu, que a principio teria como foco apenas os tipos de bombas e minas encontradas, mas acabou se tornando um museu da própria história do Camboja. E aqui, vale a pena abrir um parenteses para contar um pouco da história do Aki Ra:

Ele foi arrancado dos pais muito cedo pelo khmer rouge e até hoje não sabe seu nome de verdade e nem sua idade verdadeira, sendo chamado hoje de Aki Ra pois foi um apelido que ganhou de um agrupamento japonês o qual integrou. Quando raptado, foi lhe dado no mesmo dia um rifle e ele aprendeu a atirar de forma brilhante, incorporando o exército khmer acredita ele que em torno de seus 11 anos de idade. Neste período, muitas vezes ele fez parte do grupo que instalava minas nas fronteiras, já despertando aí seu interesse por este tipo de atividade.

Aos 13 anos, ele e outro companheiro de exército mirim, certo dia avistaram um tanque vietnamita no campo de batalha e foram tentar atacá-lo com suas armas (olha a cabeça). Os vietnamitas que estavam dentro do tanque facilmente os renderam, mas, observando o "potencial" dos garotos, fez a eles a seguinte proposta: "querem lutar do nosso lado?" O amigo de Aki Ra foi o primeiro a ser questionado e, ao responder que não, na mesma hora levou um tiro na cabeça a queima roupa. Aki Ra então, observando a cena, respondeu rapidamente que sim e assim ele passou a lutar na guerra pelo lado vietnamita, tendo que muitas vezes matar seus antigos companheiros. Foi nessa época que Aki Ra, em suas "horas vagas" começou a aprender e se tornou um especialista em rastreamento e desarmamento de minas e bombas, sendo que depois da guerra passou a integrar a ONU justamente por esta especialização, antes de retornar ao Camboja e abrir o centro de auxílio ao desarmamento de bombas e mais tarde o museu.

Cartaz falando sobre a tragédia das minas terrestres no Camboja; cartaz falando sobre o centro de desarmamento de bombas; instruções de como desarmar minas terrestres


Hoje ele é bastante conhecido mundialmente e dificilmente "aparece" no museu. Apesar de toda tragédia que foi sua vida, surpreendentemente Aki Ra parece ser um cara tri "de boa" e, pelos videos, fotos e relatos de pessoas que tiveram contato com ele, todos dizem que ele exala simplicidade, inteligência e "alto astral".

Demos sorte que no dia que visitamos o museu, uma quinta-feira, ocorre uma visita gratuita guiada oferecida por um americano, amigo e sócio do Aki Ra (eles abriram o museu juntos) que contou diversas histórias que não estavam nas exposições do museu, o que enriqueceu imensamente a visita. Inclusive a história da fabricação das bombas americanas sem passar por um controle de qualidade rigoroso foi ele que nos contou, já que ele próprio trabalhou numa dessas fábricas! Uma das histórias que ele mencionou, merece ser contada aqui por ser um pouco "engraçada" (se não fosse terrivelmente trágica):

Quando passou para o lado do exército vietnamita, Aki Ra ainda era uma criança e, conta ele, que passava as noites "de folga" brincando junto com seus antigos amigos do exército khmer, sendo que no outro dia de manhã, eles estavam uns atirando nos outros em cada lado das trincheiras. Numa dessas ofensivas ele conta que viu o seu tio do outro lado, atirando incessantemente contra ele. Ele então, para poupar seu tio, errou de propósito todos os seus tiros e contou para seus superiores que estava com febre e tontura aquele dia, afinal Aki Ra era conhecido por sua exímia pontaria. Depois do fim da guerra ele encontrou novamente seu tio e contou essa história. Diz que os dois na mesma hora caíram na gargalhada.

Algumas das histórias "tragicômicas" de Aki Ra


Além da exposição das minas e bombas o museu também tem uma parte voltada para o khmer rouge, com fotos dos soldados, amostras das carteiras de identidade que identificavam quem era leal ao regime ou não (quem iria morrer ou não), dinheiro que utilizavam e a bandeira que adotaram durante o seu governo, denominado de República da Kampuchea. O Museu deixa bem claro que, segundo os cambojanos, o principal culpado para a ascensão do khmer rouge foi os Estados Unidos que, ao quase destruir o país, abriu o caminho para ideologias fascistas assumirem o poder junto a uma população assustada (já vimos estas histórias diversas vezes não?).

Fotos dos soldados do Khmer Rouge e as carteiras de identidade que identificavam os aliados do regime; notas utilizadas pelo governo durante este período (todas as antigas foram trocadas com menções ao khmer; um pouco da história da ascensão do khmer rouge; pintura ilustrando a guerra civil tendo o Angkor Wat como pano de fundo;


Eu estava bem ansioso para conhecer esse museu e posso dizer que superou minhas expectativas, ainda mais que demos a sorte de vir no dia da visita guiada. Acho que depois do Angkor Wat é o segundo lugar de Siem Reap em questão de "imperdibilidade" (atração imperdível). É um daqueles lugares "pesados", que te fazem questionar a raça humana, mas ao mesmo tempo extremamente necessário justamente para que não percamos nossa humanidade (penso como faz um falta um museu deste tipo no Brasil, que escancare as atrocidades históricas que o ser humano pode causar. Será que se tivéssemos um desses por aqui ainda assim teríamos gente querendo a volta da ditadura ou dizendo que a escravidão não foi nada demais?).

Intervenção artística que fica no centro do museu e é um dos símbolos deste, todo feito de minas terrestres e bombas desativadas


Saímos do museu meio abalados e fomos se encontrar com o Phey. Até ia perguntar se ele ou os pais dele de alguma forma sofreram com a guerra, mas não sei se é um assunto delicado pra eles então achei melhor não. Ele começou a insistir novamente para nos levar para almoçar, e nós, já sabendo agora do esquema, aceitamos pra que ele pudesse ganhar um rango grátis, mas só depois que visitássemos o Beng Mealea, nossa próxima parada.

Esse templo, apesar de ser da mesma época e também do reino khmer, não faz parte do complexo do Angkor Wat, ou seja, tem que pagar a parte (5 dólares). Ele foi "descoberto" bem mais tarde e havia boatos de que o primeiro filme do Indiana Jones tinha sido gravado ali, mas nada haver, parece que os cenários foram inspirados nele e a ideia era gravar lá, mas para cortar custos, reproduziram o templo em um estúdio.

Como já dito, o Beng Mealea fica a 50 km do museu das minas terrestres e demoramos mais de uma hora pra chegar.

Bonito caminho até o Beng Mealea

Chegando lá, bem na entrada do templo você já percebe que a conservação dele é bem "precária", digamos assim, com vários muros totalmente demolidos somente com os blocos de tijolos soltos e entulhados e várias árvores gigantes tomando conta, lembrando muito o Ta Prohm.

Entrada do Beng Mealea: bastante destruída e com as árvores tomando conta


Como os demais templos do Angkor Wat, se você olhar ele no google maps percebe que é perfeitamente alinhado com os pontos cardeais, formando um quadrado perfeito.

Com a entrada destruída, tem que se dar a volta para entrar nele e ali foi construída uma passarela de madeira para que se possa transitar por dentro dele sem danificá-lo.

Essa passarela atravessa diversas partes do templo, entrando dentro de cavernas e subindo para outros andares, quase como que um labirinto, fazendo tu se sentir mesmo o Indiana Jones ou a Lara Croft hehehe.

Juliana Croft e Ariel Jones


Seguindo pelo caminho que seria a parte de trás do templo, a estrada termina no córrego que circunda o templo (todos os templos tem um), só que aqui a ponte está destruída e sua encosta toda tomada pelo mato e a erosão, parecendo ser o percurso natural de um rio, bem bonito e agradável.

Rio que corre atrás do Beng Mealea

Ficamos um bom tempo ali admirando os detalhes do Beng Mealea (fazendo valer os 5 dólares hehehe), que conta também com várias esculturas escavadas em pedras com figuras hinduistas, várias já tomadas pelos musgos, mas o calor e a fome começou a pegar então resolvemos ir almoçar.

O Phey nos levou então no que parecia ser o "restaurante padrão que se leva turistas que visitam o Beng Mealea", ou seja, era um pouquinho mais caro do que o que estávamos acostumados (comida custando 2 dólares ao invés de 1). Queríamos convidar o Phey pra sentar com a gente mas ele rapidamente foi para um lugar separado onde almoçavam os motoristas de Tuk tuk, obviamente um lugar mais quente e menos limpo que o reservado para os turistas, uma coisa bem colonialista mesmo.

Pedi um khmer amok (tinha me viciado) e a Juju pediu uma Fried Noodles (massa frita) e te digo que apesar de ser mais caro e "chique" que os lugares que comíamos em Siem Reap, a comida não era tão boa quanto.

Fried Noodles with Chicken

Alimentados, começamos então a jornada de volta pro hostel a bordo do nosso Tuk tuk. No caminho, o Phey de repente falou que ia pegar um atalho para chegarmos mais rápido e dobrou numa rua de terra bem esburacada (mas bota esburacada nisso). Na verdade acho que ele queria mesmo era mostrar como era o interior do Camboja pra gente, pois toda hora ele apontava e mostrava para nós, todo orgulhoso, os lugares que passávamos, as casas bastante humildes construídas em palafitas, os morros (como eu disse, acho que ele não tinha ideia de onde ficava o Brasil, de certo pensava que a gente era Europeu e não tava acostumado com esse tipo de cenário). Além disso, por causa da buraqueira da estrada estávamos andando na média de 5 km/h, não tinha nada de atalho naquilo ali (pra ter uma ideia, em alguns buracos ele tinha que descer da moto e manobrar o Tuk tuk pra passar).

Desbravando a zona rural de Siem Reap: na primeira foto, o nosso motora Phey!


Uma hora ele parou do lado de um açude para mijar, mas acho que na verdade ele queria era nos mostrar um pessoal que estava pescando ali, submersos até o pescoço naquela água lamacenta e pegando os peixes com uma rede improvisada. Ele perguntou pra nós se em nosso país era assim também e ficou meio desapontado quando eu disse que sim, que nas zonas mais pobres do interior do Brasil era do mesmo jeito.

Apesar da buraqueira detonando nossas costas, da poeira na cara que fez a Juju adotar um visual meio "muçulmano", foi bem legal ver este lado do Camboja.

Não, eu não estou sendo sequestrado por um ninja, é só a Juju se protegendo da poeira da estrada

Muitas casas bem simples sem nenhum sinal de energia elétrica, algumas poucas com gerador, muitas vacas magérrimas pelo caminho e várias casas "adotadas" por gringos: havíamos lido que muitos europeus e americanos vinham pra essa região e meio que adotavam uma casa ou um terreno, fornecendo luz elétrica, comida, ensinando inglês e etc. Como funciona na prática isso eu não sei mas que parece ser um negocio bem colonialista parece... Nessas casas fica uma plaquinha com a bandeira e o nome dos adotantes. Vimos bandeiras de vários países europeus, mas a maioria era dos Estados Unidos.

O Camboja que a Globo não mostra: na verdade a Globo acho que nunca mostrou nada do Camboja


Chegamos no hostel quase à noite (acho que levou umas duas horas o trajeto de volta). Com as costas em frangalhos e cobertos de poeira da estrada da cabeça aos pés, se despedimos do Phey e fomos dar uma relaxada na piscina antes de ir pra "night". Pensamos também em fazer uma massagem tailandesa ou uma fish massage nas ruas, mas todos os lugares que as ofereciam pareciam meio fake e mais caros que na Tailândia, então abortamos a ideia.

Já descansados (mais ou menos), à noite fomos para a Pub Street atrás do famoso churrasco cambojano. Não sei se esse prato é típico de lá ou uma coisa meio que "pra turista", só sei que é bem famoso e tem vários restaurantes e propagandas dele, com preços que variam entre 7 e 10 dólares e, já durante o planejamento da viagem estava nos nossos planos experimentá-lo. Obviamente fomos num de 7 dólares e funciona da seguinte maneira: você pede vários tipos de carne diferente (no nosso caso podiamos escolher 3) que são servidas junto com vários legumes e no meio da mesa fica uma brasa acesa com uma estrutura de metal em cima. Ali tu coloca as carnes e deixa elas assando enquanto o caldo delas cai em volta ficando armazenado e fervendo também. Nesse caldo que fica ali da carne tu joga então os legumes, que ficam cozinhando e formando uma sopa que tu pode tomar enquanto come os pedaços de carne assados. Pedimos carne de frango, porco e a mais exótica dali, de crocodilo (que tinha gosto de frango) e foi bem gostoso e divertido, embora as carnes sejam tão fininhas que dão uma saudade das nossas aqui...

Provando o exótico churrasco cambojano


Aproveitamos o resto da noite pra observar mais um pouco o movimento ali na Pub Street tomando uns chopes a 50 centavos de dólar, mas não ficamos muito e já voltamos pro hostel pra dormir.

Curtindo o fim de noite na Pub Street


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