• Ariel Farias

ÁFRICA DO SUL 7º Dia - E a jornada rumo à Cape Town continua... (20/11/2017)

Quase amanhecendo, o trem parou de novo. Depois de um tempo, continuou mais um pouco, e pudemos apreciar um lindo nascer do sol no interior africano.

Amanhecer no interior africano

O resto da manhã ficou nesse para, continua, para, continua, até que parou de vez e o gerente do trem bateu na nossa porta para nos dar a noticia que não ia ter como continuar de trem. Sendo assim, teríamos que continuar a viagem com um ônibus fretado pela companhia.

Fomos todos encaminhados então para um ônibus, não lembro em qual estação. Já se aproximava do fim da manhã e, faltando quase 800 km ainda pra chegarmos na Cidade do Cabo, o pessoal da companhia nos informou que de ônibus chegaríamos lá por volta das 17h, no máximo 19h. Não sei se falaram para tentar nos tranquilizar e não ficar tão chato para eles ou se não tinham muita noção de tempo mesmo. Hoje conhecendo melhor os transportes na África, apostamos na segunda opção. Mas como nós não conhecíamos o trajeto e sabendo que o trem é bem mais lento que um ônibus, compramos a ideia e ficamos tranquilo, chegaríamos em Cape Town ainda podendo aproveitar o fim da tarde. O ônibus era bem confortável, como tinha pouca gente ainda aproveitamos para sentar bem na frente com mais lugar para esticar as pernas e apreciar melhor a vista.

Rumo à Cidade do Cabo

Junto com o motorista, veio conosco a bordo também uma senhora funcionária do trem. Muito solícita e atenciosa, ela acabou fazendo papel de "guia" da viagem, auxiliando todo mundo e até apontando locais e contando algumas histórias pelo caminho. A guia e o motorista falavam entre eles numa outra língua, bem diferente das que havíamos escutado até agora no país.

O resto do dia então, passamos na estrada, atravessando praticamente todo o país e apreciando as diversas mudanças de paisagens rumo à Cidade do Cabo.

Casas bastante simples na beira da estrada e os típicos montes de extração de ouro


A partir mais ou menos da metade do caminho, os nomes holandeses das cidades começam a dar lugar a nomes ingleses, como Hutchinson, Beaufort West, Prince Albert Road, etc.

O ônibus fez questão de deixar todos os passageiros em suas respectivas estações de trem, o que foi bem legal, visto que muitos passageiros que ficaram pelo caminho tratavam-se de senhores de idade, cujos parentes estavam esperando nas estações. Legal também que pudemos conhecer muitas das cidadezinhas pelo caminho. Ficamos impressionados com a diferença nessas cidades do interior em relação ao que havíamos conhecido do país até agora, todas bem com aspecto de cidade pequena mesmo, maioria das casas de madeira bem estilo coloniais, bastante europeizadas e, com a maioria das pessoas brancas.

O problema é que muitas estações ficavam bem longe da estrada, tendo o ônibus que fazer desvios de até 80 km para chegar nas estações e, como já imaginávamos, passando das 19h ainda estávamos longe da Cidade do Cabo.

Se aproximando de Cape Town, entramos na região vinicultora da África do Sul, com a paisagem mudando bastante com relevos mais acidentados e clima mais ameno, bastante propício para o cultivo das uvas e, é claro, vinhedos por todos os lados, bem bonito!

Região dos vinhedos


A funcionária da companhia de trem/guia da viagem nos contou um pouco da história dos vinhos na África do Sul. País mundialmente famoso por seus vinhos e cuja produção remete a mais de 300 anos de história, diz que já foi considerado um dos piores vinhos do mundo. Que foram os imigrantes franceses, vindos em busca do ouro durante a época colonial, com sua expertise somada a qualidade do solo e clima da região, que conseguiram "elevar" a qualidade da produção de vinho e colocar a África do Sul no posto de produtores dos melhores vinhos do mundo.

Já passava das 22h e ainda estávamos no ônibus. O hostel que reservamos na Cidade do Cabo foi o Home Base Backpackers Hostel. Ficamos entre este e o 91 Loop Boutique, pois eram os únicos dois hostels que ficavam na região da Long Street, zona boêmia de Cape Town. Apesar do Home Base contar com piores avaliações no Booking.com, era mais barato que o 91 Loop e, também se localizava mais próximo à estação de trem (500 metros), nos permitindo ir a pé quando chegássemos na cidade. Só que, tarde da noite, não sabíamos se isso seria mais possível. Fomos conversar com nossa "guia" sobre isso e ela nos falou que era muito perigoso andar a pé a esta hora. Muito atenciosa e prestativa, na mesma hora ela pegou o número do hostel e ligou pra eles "exigindo" que mandassem um carro para nos buscar na estação. Ao que eles disseram que não tinha como, ela falou pra ficarmos tranquilos porque ela ia dar um jeito de nos levar até o hostel.

Chegamos na estação já quase meia-noite. A estação central da Cidade do Cabo é parecida com a Park Station de Johanesburgo, funciona como ponto de onde partem todos os trens para os arredores da cidade e também os ônibus intermunicipais, sendo assim também a rodoviária da cidade. Seus arredores não é uma zona considerada tão perigosa quanto à Park Station, mas como qualquer rodoviária de cidade grande, é sempre bom ficar ligado, inclusive um amigo meu que tinha ido para lá uns dois meses antes de nós nos relatou que sofreu uma tentativa de assalto por lá com faca.

O pouco pessoal que restou no ônibus, ou chamou um UBER para suas devidas acomodações, ou tinha alguém esperando por eles, nem se prestaram a nos oferecer uma carona ou nada do tipo. Sendo assim, ficamos por conta da "guia". Depois de esperar todo mundo pegar seus respectivos transportes, ela conseguiu uma carona de carro para ela e pra nós com um dos operadores de trem que estavam por lá ainda. Como esperado, em menos de 5 minutos já estávamos na frente do hostel. No caminho já deu pra ter um gostinho da zona central da Cidade do Cabo, com prédios altos e "chiques" ao longo da Strand Street, uma das principais avenidas por ali. No entanto, apesar de cidade grande e turística e ali ser considerada uma região boêmia, ruas totalmente desertas.

Chegando na frente do prédio onde seria nosso hostel, uma situação inusitada pra fechar a nossa jornada com chave de ouro: a tiazinha guia, vendo que o prédio do hostel estava com a porta fechada e não contava com nenhuma identificação, ficou meio desconfiada e disse que iria ficar ali esperando até que entrássemos e estivéssemos em segurança. Enquanto tocávamos a companhia do prédio e aguardávamos abrirem para nós, um mendigo que estava dormindo na entrada do prédio ao lado se levantou e veio em nossa direção colocando a mão por debaixo da camisa como que se estivesse armado. Nisso só ouvimos a tia gritar bem alto de dentro do carro: "não se atreva! Deixa eles" e o carinha, assustado, se recolheu enquanto a porta abria e entrávamos no hostel. Com toda a correria no fim e o cansaço da viagem, nem conseguimos nos despedir e agradecer imensamente toda ajuda e gentileza da tiazinha da companhia. Além de todo o apoio e atenção que deu a nós e a todos os passageiros, ainda evitou que fossemos assaltados!

Finalmente no hostel! Apesar do horário, estava bem movimentado. Trata-se daqueles hostels grandes com muitos andares e bar que vai até altas horas (mas que fica no terraço e não faz barulho para os quartos). O staff, graças a ligação da guia anteriormente pedindo para nos buscarem, já estava nos aguardando, então foi bem tranquilo e sem problemas com perda da reserva por causa do late check in ou algo assim. Instalados mas ainda com a adrenalina à mil, nos restou então aproveitar o bar do hostel tomando umas cervejas superfaturadas e jogando uma sinuquinha para relaxar e fechar a noite. Finalmente tínhamos chegado em Cape Town!

Fechando a noite no bar do hostel

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