• Ariel Farias

ÁFRICA DO SUL 4º DIA - Primeiras impressões de Johanesburgo (17/11/2017)

Dia de se despedir do Kruger Park. Diferentemente do dia anterior, este conseguimos acordar bem cedo para ver o sol nascer rodando no parque. Sol nascer mais ou menos, porque os portões do camping nessa época só abriam às 6h, depois que os primeiros raios de sol já tinham aparecido. Mesmo assim, deu pra pegar um visual bem legal na savana com alguns animais já na ativa.

Amanhecer no Kruger Park


Subimos então até o morro aquele que passamos no primeiro dia, aonde é permitido descer do carro, e pegamos um visual muito bonito com os raios de sol ainda tímidos iluminando a selva.

Mais amanhecer no Kruger Park


Como o check out da acomodação é bem cedo (10 horas), voltamos para a nossa tenda para dar uma descansada, arrumar nossas coisas, fazer o check out e aí já liberados, ficar rodando mais um tempo dentro do parque. Na hora do check out, mais uma amostra da confiança sul-africana: na recepção tinha uma caixa escrito "check out keys" ou algo assim, onde tu só jogava a chave ali e deu, tá feito o check out. Nada de passarem para fiscalizar o quarto para ver se tu tinha levado algum talher ou consumido algo do frigobar, deixando na mão dos hóspedes (e na consciência destes) fazer esses acertos finais no caixa antes de ir embora.

Depois do check out, ficamos mais um bom tempo dentro do parque fazendo mais um self game drive avistando diversos animais pelo caminho como zebras, pássaros e, se no dia anterior tínhamos avistado apenas "um" búfalo, dessa vez topamos com um grupo deles. Muito impressionantes!

Família de búfalos!


Encontramos também pela primeira vez outro animal que é bastante mal falado, por ser considerado agressivo: um babuíno. E esse era bem "antipático" mesmo, depois que nos viu ficou nos encarando na beira da estrada escondido atrás de uma moita.

Babuíno "mal-encarado"


E pelo terceiro dia consecutivo, tivemos mais uma parada forçada para deixar os elefantes passarem em bando. E novamente havia um elefante que tinha ficado para trás e estava quebrando tudo, porém, esse acho que não estava brabo, só com fome destroçando (e põe destroçando nisso) os galhos de umas árvores para comer as folhas.

Mais elefantes atravessando a estrada. Bem acima, um que "destroçava" as árvores com raiva (ou fome)


E foi "escoltando" os elefantes que, saudosos, nos despedimos do Kruger Park rumando em direção à Johanesburgo, já pensando no dia que voltaremos para esse lugar incrível que acabou nos surpreendendo para quem sabe curtir mais Braais e ver novamente os "Big Five".

Eu confesso que achava que não era tudo isso ficar dirigindo e vendo os coitados dos bichinhos que só querem ficar na deles em paz. Mas, realmente, fazer um safari no Kruger é uma coisa inesquecível, aquelas coisas que todos deveriam fazer pelo menos uma vez na vida. E mesmo que não seja das coisas mais baratas ficar dentro do Kruger Park (pelo menos para nós que estamos acostumados a ficar em hostels baratos), vale muito a pena reservar pelo menos uns 5 dias lá dentro acampando, fazendo tudo com calma e fazer alguns passeios pagos também com os rangers do parque. Tem gente inclusive que só fica lá pelo acampamento, curtindo um churrasquinho e uma piscina, nem roda com o carro pelo parque para ver os animais.

Belas paisagens do Kruger

Para fazer um caminho diferente na volta para Johanesburgo e aproveitar para conhecer outras partes do país, resolvemos sair do parque pelo portão Phabeni Gate, passando pela cidade de Hazyview, outra cidade bastante utilizada como base para se visitar o Kruger, seguindo pela rodovia R538 em direção sul até Neilspruit. A distância de Neilspruit para este portão é a mesma que o portão que utilizamos para entrar (o Malelane) então não fez diferença no tempo de viagem, no entanto, este caminho conta com paisagens um pouco mais bonitas, com alguns morros imponentes, mas nada muito imperdível.

Paisagens da estrada

Já chegando em Neilspruit, acabamos pegando uma saída diferente, o que foi legal porque conseguimos ver (mesmo que de longe) da beira da estrada, o bonito Mbombela Stadium, estádio construído para a Copa do Mundo de 2010 com torres com formato imitando girafas.

Mbombela Stadium

Aliás, já tínhamos visto na cidade diversas vezes o nome "Mbombela" (mbombela shopping, mbombela taxi rank, mbombela public library) e ficávamos se perguntando: "quem foi mbombela". Só depois (pesquisando no google) descobrimos que Mbombela na verdade é o antigo nome da cidade de Neilstpuit, sendo ainda hoje reconhecida por este nome por muitos moradores.

Seguindo viagem então, a volta, assim como a ida, foi bem cansativa, ainda mais que agora já estávamos rodando a bem mais tempo dentro do parque.

Já passava das 4 horas da tarde quando pegamos um grande engarrafamento devido à consertos na rodovia (como eu disse, eles estão sempre consertando) e começamos a ficar com medo de que não conseguíssemos chegar no horário estipulado para a devolução do carro no aeroporto, marcado para as 19h. No fim deu tudo certo, chegamos no aeroporto um pouco depois das 17h, totalizando mais ou menos 6h de viagem desde a saída do portão no Kruger, só parando para almoçar rapidamente num supermercado Checkers no caminho, umas comidas prontas que vendem no mercado. Na chegada, o próprio GPS do maps.me indica certinho o caminho para a garagem de devolução dos carros da locadora budget dentro do aeroporto, o que não foi o suficiente para que nós não nos confundíssemos um pouco na hora por causa da mão inglesa e as conversões tudo invertidas hehehe, fazendo com que errássemos a entrada e tivéssemos que dar umas voltas a mais para finalmente chegar na garagem para devolver o carro.

Semelhante ao check-out do Skukuza, para devolver o carro também não é necessário conversar com ninguém e nem fazer nenhum procedimento burocrático, basta estacionar o carro na garagem, entregar a chave num armário de chaves e acabou o aluguel, no outro dia já havia sido estornada a caução que fazem no cartão de crédito (para quem não sabe, sempre ao alugar um carro, a locadora faz uma reserva de um saldo no seu cartão de crédito, para cobrir eventuais danos ao carro).

De volta novamente ao aeroporto OR Tambo, tínhamos agora que arranjar um jeito de chegar no nosso hostel. Como já comentado diversas vezes, o transporte público na África do Sul é bem precário. Em Johanesburgo então, a cadeia de transporte público é dominado por vans "particulares", que lá eles chamam de "táxis", milhares delas que lotam as ruas da cidade e que fazem os trajetos mais bisonhos possíveis, de acordo com a vontade dos donos e sem nenhum compromisso com horários. Inclusive há toda uma máfia das vans, que acaba sendo um dos maiores problemas da segurança pública da cidade. Enquanto no Brasil temos as guerras entre traficantes por pontos de drogas, em Johanesburgo ocorrem com frequência guerras entre donos de vans rivais em busca de pontos, contribuindo para a alta taxa de homicídios da cidade. Dito isso, é bem complicado para um turista utilizar essas vans, não só pelos riscos inerentes, mas porque há todo um sistema complexo de rotas e toda uma linguagem de sinais que se faz com as mãos para chamar uma van na rua e indicar onde você quer ir que somente quem mora a muito tempo lá domina (sério mesmo, dependendo do gesto que você faz para chamar a van na rua com a mão, indica para onde ela vai te levar: um dedo você vai para tal lugar, dois dedos outro lugar, bem louco!). Também há o trem suburbano, que alcança alguns bairros mais afastados, o metrorail, mas este todos os sul africanos, blogs de viagem, site de turismo de Johanesburgo e etc, alertam reiteradamente que NÃO deve ser utilizado por turistas, especialmente brancos. Há um alto índice de assaltos nestes trens e uma regra velada de que brancos não o utilizam, um dos muitos resquícios do Apartheid, pois os trens levam somente para os bairros negros da cidade e foram feitos na época apenas para os trabalhadores não brancos. Para se ter uma ideia, até o Seat61, o principal site com informações e dicas sobre trens de todo o mundo, recomenda que turistas não peguem de forma alguma os trens suburbanos de Johanesburgo. Para ter mais uma noção ainda, procurando informação por trens ou metrôs em Johanesburgo na internet, simplesmente é ignorado que estes trens existem! Você só encontra informações sobre o Gautrain, trem ligeiro que foi construído para a Copa de 2010 e que faz um trajeto somente do aeroporto até os bairros ricos e de maioria branca do norte, Sandton e Rosebank e tido como o principal meio de transporte para o aeroporto. Para a copa do mundo também, foi implantado um sistema de ônibus tipo BRT na cidade, o Rea Vaya, esse sim um transporte confiável, porém, não engloba (pelo menos na época) toda a cidade e é necessário fazer um cartão para utilizá-lo, que na época lembro que era bem caro e feito em poucos lugares. Também conta com poucas linhas e horários, sendo o último normalmente às 20h (coisa comum na África do Sul, tudo encerra cedo).

Este breve relato sobre como funciona o transporte público em Johanesburgo foi para mostrar o quão difícil e quanta pesquisa tivemos que fazer para planejar nossos deslocamentos pela cidade. Nessas, descobrimos então que existe um ônibus da companhia "metrobus" ao valor de 20 Rands, que levava do aeroporto até a Gandhi Square, praça nomeada em homenagem à Gandhi que ficava próxima do nosso hostel, e o plano A então era pegar esse ônibus. No entanto, podre de cansados da viagem de carro e meio sem saber onde que se pegava esse ônibus no aeroporto e se neste horário ainda iria passar algum, apelamos então pro UBER. O UBER na África do Sul funciona muito bem e é muito barato e seguro. Na época ainda era uma novidade no país e, assim como ocorreu bem no início aqui no Brasil, não era muito bem visto pelos taxistas. Um taxista inclusive, vendo que estávamos no celular com o aplicativo aberto veio querer nos tirar satisfação e tivemos que despistá-lo. Na época também o local de embarque dos UBERs no aeroporto ficava no segundo andar numa saída em frente a uma lancheria, bem meio que "escondido", tendo que o motorista nos enviar o local exato pelo chat do aplicativo. Embarcados no UBER, agora sim iríamos começar a conhecer Johanesburgo.

Johanesburgo, também conhecida como Joburg ou Jozi pelos mais íntimos, é a 6ª maior cidade do continente africano. Se levar em conta sua região metropolitana, é a primeira. É um dos centros urbanos, econômicos e culturais mais importantes da África e conta com o maior aeroporto da África subsaariana, sendo o principal hub do continente. Por isso, muitos inclusive sempre pensam que Johanesburgo é a capital da África do Sul, mas não. Algo semelhante ao que acontece com Sidney na Austrália, onde quase ninguém sabe que a capital na verdade é Canberra (ou no próprio Brasil também).

Infelizmente também é considerada a cidade mais perigosa em questão de criminalidade urbana do continente e, embora para nós brasileiros os números da violência não sejam nada muito diferentes dos daqui, para os turistas a coisa é diferente por serem os principais alvos de roubos e assaltos, inclusive possuindo regiões em que há altas recomendações para que turistas não transitem sozinhos.

A primeira vista, Joburg é uma cidade enigmática, aquelas que te convidam a conhecer por seus próprios olhos para tirar suas próprias conclusões. Embora em todo o país o Apartheid esteja ainda presente e seja sentido na pele, existindo cidades de maioria negra e cidades de maioria branca onde você não vê famílias ou grupos de amigos "misturados", em Johanesburgo acredito que seja aonde mais se sinta em um só lugar a herança desse regime maldito. Dependendo de cada região da cidade onde se está, é um mundo completamente diferente.

Dito isso, foi um dos lugares mais difíceis também de escolher onde iríamos se hospedar. Todos os blogs e guias de viagens do país, indicam sempre os bairros de Sandton e Rosebank como únicas opções possíveis, bairros ricos e seguros e os únicos que possuem conexão com o aeroporto pelo Gautrain, considerado também por muitos blogs como "a única forma de sair do aeroporto de Johanesburgo" (bairros que não nos deram vontade nenhuma de conhecer). Há também o bairro "Braamfontein", bairro próximo ao centro que possui bastante comércio, alguma vida noturna e que vem passando por diversas modernizações ao longo dos anos, e também o "Maboneng", queridinho da cidade, região do centro que antigamente contava com muitas fábricas abandonadas e que havia se tornado uma espécie de "cracolândia" e que agora passa por um processo de gentrificação, sendo o novo reduto "hipster" de Jozi. Mas como iríamos ficar somente duas noites na cidade, queríamos ficar num ponto que facilitasse nossos deslocamentos, sendo assim, escolhemos um hostel bem no centro de Johanesburgo, na "temível" CBD.

O bairro CBD (Central Business District), o equivalente ao "centrão" de Joburg, já foi a principal região econômica da cidade. No entanto, logo após o fim do Apartheid em 1994, os negros que haviam sido proibidos de morar nesse bairro e nos bairros adjacentes e removidos para a periferia, começaram a retornar e ocupar a região. Muitos brancos donos de escritórios no centro, horrorizados com os novos vizinhos, além de grandes empresas simpatizantes do regime, querendo boicotar o governo como resposta à abolição, abandonaram esses bairros e se mudaram para os bairros ricos do norte como Sandton e Rosebank.

Sem uma política pública efetiva de reestruturação, a reocupação da CBD ocorreu de forma desordenada, com o esvaziamento de prédios e fábricas inteiras extinguindo as fontes de renda da região, o que desencadeou uma onda de criminalidade e violência, com rotineiros assaltos à mão armada e briga de gangues, fazendo dela uma das regiões mais perigosas do país.

Olhando suas ruas no google maps, não vemos nada de amedrontador ou diferente de qualquer centro urbano de cidades grandes, com muito comércio e trânsito de carros e pessoas (inclusive aparentemente melhor que diversas cidades brasileiras).

Ruas da CBD com sua característica infinidade de vans


Realmente, nos últimos anos o centro de Johanesburgo vem se reestruturando através de iniciativas pontuais e já não é mais um "lugar esquecido por deus", mas ainda é considerado um dos lugares mais perigosos para transitar na cidade e altamente recomendado que turistas não passem por lá. Muitos moradores de Johanesburgo inclusive passam a vida toda sem conhecer o centro, o que para nós é muito estranho imagina, uma pessoa não conhecer o centro de sua própria cidade? Em Johanesburgo estranhamente a periferia é mais segura do que o centro da cidade.

Mesmo com todas essas informações desencorajadoras, resolvemos encarar, pois afinal encontramos um hostel no booking bem no coração da CBD, o Urban Zulu Backpackers que possuía boas avaliações. Ficamos entre esse e o Once n Joburg, que fica em Braamfontein, mas no fim optamos pelo Urban por ser mais barato e pela localização estratégica para nossas locomoções (o que no fim não fez diferença), se situando a uma distância a pé da Gandhi Square (onde havia o ônibus direto para o aeroporto) e da Park Station, onde pegaríamos dias depois nosso trem para Cape Town.

Voltando ao UBER do aeroporto. No caminho já deu para perceber os "contrastes" da cidade: passamos por região revitalizadas e estilosas como o Maboneng e, dobrando a esquina, várias "cracolândias". Quando descemos em frente ao hostel, vendo dois brancos com mochilas, o pessoal do staff do hostel já saiu correndo nos apressando para que entrássemos no hostel de uma vez (que clima hein?).

Este foi um dos hostels com os atendentes mais legais e atenciosos que já ficamos, pessoal fazia questão de nos ajudar o tempo todo sempre com muita boa vontade. Assim que finalizamos o check in, fizeram questão de fazer um tour pelo hostel todo e já nos convidaram para a "festa" com braai que iriam fazer na noite seguinte. O hostel era bem bom, apesar de um prédio velho com um ar lúgubre, ficamos num quarto privativo bem confortável (com os móveis bem velhos e janela emperrada, é verdade) e os banheiros compartilhados eram enormes, com água quente bem forte.

Urban Zulu Hostel


Sua área comum ficava num terraço bem grande e muito agradável, com churrasqueira, sofás e mesas de sinuca com vista 360º para as ruas da CBD (além de varais para secar a roupa, muito útil!), sendo esse terraço o "diferencial" mesmo do hostel.

Agradabilíssimo terraço do hostel


Já acomodados, nos preparamos então para fazer um reconhecimento da região e encontrar um lugar para comprarmos nossa janta e café-da-manhã para o outro dia. O staff do hostel nos indicou então que o supermercado mais próximo seria um Pic n Pay que ficava dentro do icônico Carlton Center, um dos prédios mais famosos da África do Sul e ponto de referência da região.

O Carlton Center já foi o prédio mais alto da África do Sul (hoje é o segundo) e um dos principais pontos turísticos da cidade, contando com um shopping e salas comerciais. Após a degradação do CBD, chegou a ser totalmente abandonado no fim dos anos 1990. Em 2000 no entanto, foi comprado pela empresa paraestatal Transnet, que começou a reocupá-lo novamente em meados dos anos 2000, reabrindo o shopping, supermercado, bares e escritórios fazendo dele novamente um centro comercial importante, mas ainda muito longe da importância e do glamour que teve no período do Apartheid.

Como ponto turístico também, apesar de ser um ponto de parada ali do ônibus turístico hop-on hop-off, raramente tem aparecido em listas "do que visitar" na África do Sul após o fim do Apartheid. Também há pelo centro diversos "mercadinhos" abertos por imigrantes, em sua maioria indianos, mas muito rudimentares e com quase nada "aproveitável" para se comprar (de itens de alimentação não possuem pão, frios e nem bebidas, somente salgadinhos e biscoitos de procedência duvidosa). Aliás, como cidade mais "rica" do continente, após o fim do Apartheid Johanesburgo se tornou o maior centro migratório da África, concentrando uma população imigrante enorme de pessoas de todo o mundo ou fugindo de guerras em seus países ou apenas buscando melhores oportunidades, o que novamente, sem uma política pública imigratória eficiente e numa economia de alta concentração de renda e desemprego, tem despertado um sentimento xenófobo na população e vem gerando ondas frequentes de violência xenofóbica desde meados dos anos 2000. Um dos episódios mais recentes ocorreu a bem pouco tempo em 2019, quando diversos comércios gerenciados por imigrantes estrangeiros, em sua maioria de nigerianos e moçambicanos, sofreram ataques de saques e depredações deixando diversos mortos e uma centena de feridos. Felizmente, no ano que estávamos lá a situação estava "pacífica", inclusive conhecemos bastante imigrantes por ali e o máximo de xenofobia que presenciamos foram as diversas piadas com a forma com que os indianos falavam inglês balançando a cabeça.

Seguimos então em direção ao Carlton Center, após reiteradas orientações do staff para que nos cuidássemos bastante no caminho e que não levássemos nada de valor (coisa que infelizmente já estamos mais do que acostumados a fazer no dia-a-dia aqui no Brasil). Também que teríamos que "correr" já que já estava quase no horário do Pic n Pay fechar. Sabendo agora que isso não era uma coisa exclusiva do interior, aproveitamos para perguntar então para o pessoal porque tudo na África do Sul fecha tão cedo e, meio sem saber realmente o motivo, nos foi dito que seria porque os trabalhadores todos moram muito longe, por isso encerram o trabalho cedo para poderem chegar em casa num horário decente, mas não ficou claro se é realmente isso.

Em todo o caminho e dentro do shopping do Carlton Center, éramos os únicos brancos, e o segurança do prédio fez questão de nos acompanhar até a porta do supermercado para que não ficássemos transitando perdidos pelo prédio, visto que ele fica no subsolo, bem meio escondido mesmo. Compramos então pão e frios para a janta e café do outro dia mas não conseguimos pegar a Liquor Store aberta e ficamos sem a cervejinha para a noite hehehe. Cumprida a "missão" das compras, aproveitamos para conhecer um pouco o shopping. Achamos um ambiente bem normal, bem longe do pavor que o pessoal do hostel nos meteu. Bem à vontade, antes do shopping fechar ainda aproveitamos para dar uma jogadinha no fliperama, inclusive contando com a ajuda de uma gurizada que estava lá para comprarmos nossas fichinhas.

Voltando pro hostel, já escurecendo, encontramos o atendente do hostel na entrada conversando com um amigo. Fomos perguntar pra ele onde poderíamos achar cerveja por ali e ele foi conosco numa rua na esquina num bar/danceteria/inferninho para que pudéssemos comprar uns latões de Castle (superfaturados). No bar ele nos apresentou pro dono e prum pessoal que tava ali e estes fizeram a maior festa vindo nos cumprimentar e nos dar boas vindas, acho que por sermos os primeiros (e talvez únicos) turistas que viam por ali a muito tempo.

Com nossas cervejas, ficamos mais um tempo por ali na rua conversando com o pessoal. Um dos amigos do carinha do hostel (que estava mais interessado é em filar nossa cerveja) nos contou que veio da Zâmbia para trabalhar numa indústria gráfica devido às dificuldades no país dele. Contou um pouco da história dele e que a família dele foi toda separada na fronteira da Zâmbia com o Zimbabwe arbitrariamente por causa do colonialismo do homem branco "tipo eu", ele apontava para mim, fronteiras criadas sem nenhuma consideração pelos povos e etnias que ali viviam, não gerando nenhum sentimento de "nação". Cicatrizes que ainda estão muito vivas na África subsaariana.

Depois mais tarde, subimos no terraço do hostel para fazer nossa janta e tomar nossas cervejas. À noite fica ainda mais agradável o terraço, com as luzes da cidade na paisagem ao fundo.

Noite na CBD


Conhecemos também uma galera bem legal que nos chamou para conversar, uns guris que eram da África do Sul mesmo (um inclusive morador de Johanesburgo) e uma americana que estava fazendo mestrado lá em Jozi. Ficamos até tarde na resenha, de quebra nos ensinaram (tentaram pelos menos), umas palavras em zulu e kosha, duas das línguas bantas oficiais mais faladas da África do Sul. Com a grande variedade de línguas faladas no país, todo sul-africano sabe se comunicar em pelo menos 3 das 11 línguas oficiais, algo que para nós que só falamos e temos contato com o português para tudo, é algo bem difícil de assimilar. Tendo esse contato com línguas diferentes desde crianças e o tempo todo, é muito mais fácil para eles aprenderem novas línguas. Inclusive com uma grande imigração no país de moçambicanos e angolanos, até português eles sabem algumas palavrinhas. O inglês pra eles então, é a "língua comum" (língua de bosta, que disseram), que só usam em último caso, para se comunicar com estrangeiros e que segundo eles, é tão pobre gramaticalmente que qualquer um aprende em um dia. Como sul africanos negros, quando perguntei sobre o Afrikaneer, rapidamente mudaram de assunto e falaram que nem consideram isso uma língua. Futuramente falarei mais sobre a questão da língua Afrikaneer na África do Sul.

Também conseguimos conversar um pouco sobre racismo, assunto de muito interesse para os sul africanos, e estes ficaram horrorizados ao descobrir que o Brasil, país que possui a segunda maior população negra do mundo, é também um dos países mais racistas do mundo, pois para eles a imagem que tinham do nosso país é que esse seria uma "democracia racial", não acreditando quando passei para eles as estatísticas de desigualdade do país entre brancos e negros. Comparando os números, para um país que saiu de um Apartheid há menos de 30 anos, a situação dos negros sul africanos em questão de ocupação de cargos públicos importantes, nível de escolaridade e salários (além de taxa de mortalidade, homicídios e população carcerária) é muito melhor do que a dos negros brasileiros. Lá como o racismo era uma coisa legalizada e não escondida que nem no Brasil, muito mais fácil foi aplicar políticas públicas reparatórias ao final deste regime, coisa que aqui nunca foi feita após o fim da escravidão. Pelo contrário, ainda tentou-se (e ainda hoje tenta-se) exterminar a população negra do país. Lá políticas de cotas é uma coisa inquestionável, bem diferente do que vemos no Brasil, que é um assunto ainda polêmico por causa do nosso racismo velado e o mito da "democracia racial".

Já tarde da noite, antes de nos recolhermos para o quarto fomos ver o que estava fazendo um barulho alto no fosso do elevador desativado do hostel. Quando olhamos para os quatro andares abaixo, uns ratões enormes! Pareciam uns cachorros, revirando o lixo. Ainda bem que o elevador estava desativado mesmo...

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