• Ariel Farias

ÁFRICA DO SUL 19º Dia - Chegando no Soweto (02/12/2017)

Dia de retornar à Johanesburgo, dessa vez para conhecer o lendário Soweto, última parada da nossa viagem pela África do Sul. Como nosso voo só saia às 14 horas, de manhã ainda deu tempo de passar num lugar que eu queria muito conhecer em Gqeberha, o estádio Nelson Mandela Bay:

O estádio Nelson Mandela Bay é um estádio multiuso construído do zero especialmente para a Copa do Mundo de 2010, visto que esta região da África do Sul não possui tradições futebolísticas. Com capacidade para 48.000 pessoas, hoje ele sedia shows e eventos, além de algumas partidas de rugby.

Apesar do nome, engana-se quem pensa que ele é uma homenagem ao Nelson Mandela (pelo menos não diretamente). Ele apenas um homônimo do nome da região metropolitana onde está localizado: Nelson Mandela Bay.

Como tínhamos certa pressa, chamamos um UBER para ir até lá e, como não tínhamos internet para chamar um UBER na volta (além de que os arredores do estádio são meio vazios durante a semana, dando uma sensação de insegurança), pedimos para o motorista do UBER nos esperar e nos levar de volta ao hostel após a breve visita.

O estádio é bem bonito, a cobertura lembra muito o Estádio Beira-Rio, aqui de Porto Alegre, porém numa menor escala. Tivemos que admirar ele de fora, atrás ainda de uma cerca de isolamento, visto que parecia estar totalmente vazio. No entanto, são disponibilizadas visitações guiadas 3 vezes por semana para quem quiser conhecer mais sobre ele (infelizmente, ocorrem somente durante a semana e estivemos lá num sábado).

Estádio Nelson Mandela Bay


Atrás dele fica uma espécie de parque que conta com um pequeno lago, mas que, não sei se porque o dia estava nublado e deprimente, não é muito agradável não (quem sabe em dia de jogo fique mais animado).

Laguinho meio abandonado atrás do Estádio


Depois da rápida visita ao Estádio, voltamos pro hostel, fizemos nosso check-out e ficamos na área comum aguardando se aproximar o horário do nosso voo. Nisso me dei conta então que no fim havia pagado além da meia diária no cartão de crédito no momenro da reserva, a diária inteira no momento do check-in no dia anterior (mais explicações no post anterior). Fui então reclamar na portaria e o menino que estava atendendo disse que não ia poder devolver meu dinheiro, somente com autorização da gerente que, convenientemente, só chegaria à tarde, depois que já teríamos ido. Bom, menos mal que se tratavam só de 50 Rands. Além disso, o inteligente aqui devia ter se ligado nisso na hora do check-in né? Mas o que me deixou indignado mesmo foi quando, ali na área comum, enquanto esperávamos o horário do voo se aproximar, acabamos conhecendo duas brasileiras que iriam pegar o mesmo voo que nós e que estavam esperando também. Enquanto conversávamos com elas, elas nos contaram que na noite anterior havia acontecido um jogo de rúgbi festivo e gratuito lá no Estádio Nelson Mandela que elas haviam ido e curtido bastante (apesar de não entenderem nada hehehe). Fiquei muito indignado e decepcionado comigo mesmo. Como que perdemos a chance de ver um jogo de rúgbi (de graça ainda por cima), esporte nacional da África do Sul, num estádio sede de copa do mundo? Eu que sempre fico ligados nos eventos nas cidades por onde passamos, como deixei passar? Definitivamente deve ter sido repercussão ainda da batida do carro alugado, que me deixou bem avoado naqueles últimos dias de viagem.

Voltando ao voo, havíamos comprado a passagem pela companhia low-cost FlySafair, companhia sul-africana muito boa por sinal. Como a maioria das companhias low-cost cobram por tudo, tentamos fazer o check-in online e gerar o boarding pass pelo site, mas não estávamos conseguindo. As nossas colegas de hostel também não, então se dirigimos cedo para o Aeroporto para ver se daria para fazer lá na hora sem nos cobrarem uma fortuna. Fomos de UBER para o aeroporto então e fizemos o Check-in no guichê da companhia lá na hora, sem cobrarem nada por isso (ufa!). Na sala de embarque, encontramos o time inteiro de rúgbi que havia jogado lá na noite anterior. Eles pegaram o mesmo voo que nós. Pelas caras dos jogadores, acho que eles haviam perdido o jogo hehehe.

Pouco mais de uma hora e meia depois, estávamos mais uma vez no Aeroporto OR Tambo em Johanesburgo (acho que até hoje é o aeroporto fora do Brasil que mais passamos).

Primeira locomoção em avião dentro da África do Sul

Dessa vez, fim da viagem e dinheiro sobrando, nem pensamos duas vezes em chamar um UBER para ir até o nosso hostel, embora o pessoal do hostel tivesse nos passado várias dicas para chegar lá usando o transporte público da Rea Vaya e até se propuseram a nos aguardar na parada de ônibus lá no Soweto (o hostel também ficava bem próximo de uma estação dos trens da Metrorail, mas esses já sabíamos que são "proibidos" para turistas). O UBER do aeroporto até lá deu na época algo em torno de 60 reais e dessa vez já estávamos craque e sabedores do local exato para se pegar o UBER no Aeroporto.

O hostel que escolhemos foi o Lebo´s Soweto Backpackers, que na época era o hostel "oficial" do Soweto (hoje em dia existem mais alguns), famoso por oferecer o passeio de bike pela região, atração turística bastante procurada por turistas. A maioria dos turistas faz só o passeio de bike mesmo, mas nós resolvemos imergir ainda mais nesse lugar histórico, se hospedando dentro da comunidade.

Não é necessário explicar muito sobre o Soweto mas, para quem ainda não conhece, o Soweto é a sigla para South Western Townships, ou seja, Townships do sudoeste. Apesar da região ser bem antiga, foi constituída oficialmente como Soweto, um bairro de Johanesburgo, durante o regime do Apartheid em 1963, para alocar os negros da cidade, afastando-os do centro da cidade. Com o tempo, mais e mais pessoas foram sendo deslocadas para lá fazendo com que ela hoje possua praticamente o tamanho de uma cidade.

O local hoje é reconhecido como o berço da luta contra o Apartheid, que culminou com a eleição de Nelson Mandela em 1994. Foi lá que ocorreram diversos episódios de resistência populares contra as forças do Apartheid (ver este post aqui), sendo o principal deles e mais emblemático o Levante do Soweto em 1976, o qual falarei melhor no próximo post. Soweto hoje possui pouco mais de 1 milhão e 200 mil habitantes, quase 100% negros e é uma região semiautônoma de Johanesburgo. Internacionalmente ainda é conhecida como uma Township, ou seja, o equivalente a uma favela para nós brasileiros. Os índices de violência com certeza são similares às favelas brasileiras, sendo considerado um dos bairros mais violentos do mundo. Porém, o Soweto não é um bloco homogêneo, é uma região enorme composta por regiões bem diferentes, como se fosse uma cidade mesmo, incluindo diversas etnias de povos diferentes (todos obrigados a viverem juntos por imposição do apartheid), partes mais urbanas, mais comerciais, mais rurais, mais ricas, mais pobres, partes miseráveis, etc. Inclusive partes extremamente turísticas como por exemplo os arredores da Vilakasi Street, quase sempre tomada de estrangeiros, e regiões mais hypadas que passam por processos de gentrificação, como por exemplo os arredores das Orlando Towers. Fazendo uma comparação meio forçada, poderíamos comparar o Soweto com a Rocinha por exemplo, uma favela bem turística e "internacional".

Quanto ao hostel, embora com uma decoração bem rústica com um estilo de construções mais simples, é um pouco elitizado, inclusive com os preços, tanto da hospedagem quanto do bar um pouco mais elevados que o normal, visto que é bastante procurado por europeus que buscam a experiência de se hospedar numa das favelas mais famosas do mundo.

Lebo´s Soweto Backpackers


Uma das vantagens dele é que quem se hospeda por lá paga a metade do valor do tour de bike pelo Soweto, o qual já havíamos reservado junto com a hospedagem para o outro dia. As áreas comuns e os arredores também eram bem legais, com piso de chão batido e móveis rústicos na parte de dentro, bastantes adereços africanos antigos, bastante coisa feita de bambu e, na parte de fora bem em frente um gramadão, espécie de pracinha ao lado dos trilhos do trem onde podia-se interagir com as crianças jogando bola e a população local, com horta e cozinhas comunitárias, cadeiras e mesas feitas com material de reciclagem, muito agradável para se passar o fim de tarde.

Espaço muito legal em frente ao hostel


Nem preciso dizer que o hostel é engajado em diversos projetos sociais no bairro e foi o responsável pela revitalização daquele espaço ali, que provavelmente deveria ser um terreno abandonado e lotado de lixo, como em tantas outras partes do Soweto. O pessoal do staff também era muito legal, extremamente solícitos e prestativos, se esforçavam um monte para ajudar e deram várias dicas. Ao fazer o check-in fomos imediatamente convidados para a janta da noite que iria rolar lá: um Braai com acompanhamentos, segundo eles, feito por renomadas chefs da região. O valor cobrado era o dobro do que havíamos pago, por exemplo, no hostel que havíamos ficado no centro de Johanesburgo mas, como eles foram muito simpáticos e já que dessa vez iria ser cozinhado por chefs e poderia ser nossa última oportunidade de comer um Braai e os maravilhosos acompanhamentos da África do Sul como o Pap e o Chakalaka, topamos.

Como partiríamos na segunda-feira bem cedo e domingo já tínhamos o passeio de bike programado, também poderia ser a última oportunidade de comprar algumas lembrancinhas para levar para o Brasil, e por lembrancinhas eu quero dizer: os espetaculares vinhos e cervejas sul africanas, aproveitando que a passagem Johanesburgo - Porto Alegre dava direito a despachar malas, oportunidade rara nas nossas viagens hehehe. Sendo assim, aproveitamos o finzinho de tarde para passar em algum supermercado. Conversando com o pessoal do staff, estes nos informaram que o supermercado mais próximo na região era um Pic n Pay que ficava dentro do Shopping Meadow Point, um centro comercial com várias lojinhas a céu aberto mas que não daria para ir a pé, pois ficava a dois quilômetros do hostel numa região não muito recomendada para dois turistas transitarem. Dessa forma chamamos um UBER. O nosso medo era não conseguir wi-fi para chamar um Uber na volta mas, muito solícitos e prestativos que eram, o pessoal do staff se prontificou a chamar para nós caso não conseguíssemos.

Chegando no tal centro comercial, o lugar era uma muvuca só. No pátio bem em frente dezenas de churrasquinhos de rua, comércio de rua vendendo tudo que é tranqueira, pessoal jogando dominó numas mesinhas, turmas fazendo o seu braai acompanhado de uma cervejinha, criançada correndo prum lado e pro outro, parecia uma festa, muito animado! Pelo visto ali é o ponto de encontro da galera da região nas tardes de sábado.

O supermercado também estava cheio, e pegamos uma fila gigantesca mas compramos um fardinho de cerveja e dois vinhos para trazer para o Brasil. Nunca vou esquecer numa hora que a Juliana ficou guardando lugar na fila e eu saí para buscar alguma compra que faltou, na hora que voltei olhei naquela fila gigantesca a Juliana a única pessoa branca na multidão. Acho que é muito raro passar um turista por ali, mas o pessoal nem dava bola para nós, tavam mais preocupados em tomar sua cerveja, comer seu churrasquinho e fazer sua jogatina. O bom de visitar lugares não turísticos é que não tem aquele assédio de gente querendo te vender tudo que é tipo de coisa ou te passar a perna. Pelo contrário, o pessoal é muito legal e receptivo.

Na hora da volta, por sorte conseguimos achar um wi-fi no KFC que havia ali no centro comercial para chamar o Uber. O UBER quando nos viu não conseguiu disfarçar a cara de espanto e a primeira coisa que perguntou, meio sem jeito: "vocês não são daqui são?". Respondi brincando "Sou sim! Por quê que você acha que não?" e caímos na risada hehehe. Muito simpático, apesar do trajeto curto a conversa rendeu bastante.

Uma coisa que acho que não havia ainda comentando ainda, mas que vale muito destacar, pelo menos na nossa experiência, foi a simpatia e a educação não só dos motoristas da África do Sul mas de todos prestadores de serviço que conhecemos durante nossa passagem por lá.

O sul africano sempre te cumprimenta com um "Hi, how are you?", mas é aquele "como vai você" que você sente que é verdadeiro, a pessoa realmente quer saber como você está (não é que nem no Brasil que o cumprimento "como vai" é meio que automático e ninguém nunca responde de verdade). Achei isso muito bacana por lá e ficávamos até meio sem reação na hora de responder.

Voltando à conversa no UBER, outra coisa que deixou o motorista assustado foi quando comentamos que havíamos se hospedado no CDB de Johanesburgo no começo da viagem. Ele comentou que a maioria dos UBERs evitam ao máximo os arredores do Carlton Centre e que ele mesmo já havia sido assaltado lá uma vez. No caso, ele falou que era muito perigoso em Johanesburgo andar na rua com o celular na mão ou bens de valor, que era sempre bom guardar celulares, relógios e anéis no bolso. Quando contei pra ele que no Brasil não adianta se o celular tá escondido no bolso, na mochila ou aonde for, pois o assaltante chega pra ti e te aponta uma arma e de qualquer jeito tu acaba tendo que entregar tudo que tu tem de valor aí ele percebeu porque estávamos tão tranquilos andando pela cidade hehehehe.

Chegando no hostel, conhecemos nossos colegas de quarto e ficamos esperando a janta no espaço em frente ao hostel que, como já mencionado, era bem agradável para passar o fim de tarde. Pegamos umas cervejas e fomos ali pro gramadão. Os cozinheiros já estavam começando a assar o braai na cozinha comunitária ali da pracinha.

Esperando o rango


O "bar" do hostel era bem legal, "self service". Na verdade era só uma geladeira onde tu pegava ali tua bebida e depois anotava num caderninho do lado o que tu pegou. Só depois no check-out era incluído o que tu consumiu na tua conta, bem naquele esquema da confiança sul africano já tão comentado positivamente aqui no blog.

Quando a janta ficou pronta, fomos chamados pelo pessoal do staff para se servir, lá na parte de dentro do hostel, num espaço comum bem legal com umas espécies de tendas individuais com sofás e mesas, bastante agradável.

Esse hostel nos ganhou na decoração


A comida era bem diferenciada mesmo e justificava o valor mais alto. Matamos a saudade do Braai e do Chakalaka, que desde Johanesburgo não havíamos experimentado mais. A carne, bastante passada, como sempre, passa longe do sabor de um churrasco gaúcho, mas os acompanhamentos... esses são muito bons!

Braai e os maravilhosos acompanhamentos

Depois de se matarmos comendo, o negocio então foi se atirar nos sofás ali da área comum e encerrar a noite. No outro dia seria nosso último dia na África do Sul.

Aquela bobeirinha depois da janta...

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