• Ariel Farias

ÁFRICA DO SUL 14º Dia - Avestruzes e cavernas em Oudtshoorn (27/11/2017)

Nosso objetivo nesse dia era chegar até a cidade de Knysna (lê-se: "naisna"), uma das mais famosas da Garden Route, passando antes em outra cidadezinha bem famosa da rota que é "Oudtshoorn", cuja principal atração são as milhares de fazendas de avestruzes e a formação geológica Cango Caves, uma extensa rede de cavernas. Oudtshoorn não fica no litoral, estando a 86 quilômetros de Mossel Bay, mas por suas atrações diferentonas, acabou entrando no rol de cidades visitadas pelos turistas que fazem a Garden Route. De lá são mais 120 quilômetros até Knysna, então, novamente saímos cedo para tentar não pegar estrada à noite (mas dessa vez tomando café da manhã direito!). Assim como Hermanus, ficou para uma outra oportunidade conhecer melhor as atrações de Mossel Bay, mas para quem tiver tempo de visitar a cidade, aqui vão alguma delas:

  • Passeios para fazer a Shark Cage, assim como em Hermanus

  • Passeios até a ilha das focas

  • Visita ao farol Cape Saint Blaise

  • Fazer diversas trilhas lindíssimas nas falésias que costeiam o mar, com direito a grutas e formações rochosas espetaculares (inclusive dizem que assistir o nascer do sol ou o pôr-do-sol nas trilhas é uma das coisas mais impressionantes que existem)

  • Visitar o Museu Bartolomeu Dias, museu dedicado às navegações portuguesas na África e que conta com réplicas em tamanho real de algumas das embarcações utilizadas por estes.

Também lemos num blog que lá é o local mais barato para se tomar a cerveja Guinness, tanto em bares quanto restaurantes. Não sabemos o motivo disso, mas definitivamente foi uma lástima não termos dedicado pelo menos um dia inteiro para ficar na cidade...

Voltando a nossa viagem, rapidinho então, ainda pela manhã, chegamos na cidade de Oudtshoorn, conhecida como a "capital mundial do avestruz".

Oudtshoorn é a cidade que mais concentra avestruzes no mundo. Essa marca iniciou em 1864, quando as penas de avestruzes, animal típico da região, se tornaram um item de moda extremamente desejados pela nobreza europeia, o que fez com que fazendas com os animais proliferassem na região, visando a exportação e os grandes lucros que se obteria com ela, já que o preço das penas de avestruz chegou a se equivaler ao de diamantes no período.

Com isso a população de avestruzes cresceu de forma desordenada, diretamente proporcional à riqueza dos fazendeiros de Oudtshoorn, fazendo dela uma cidade bastante rica. Com a queda do preço das penas no mercado internacional, grande maioria destes fazendeiros viu seus lucros caírem de forma brusca. Até que, envoltos com milhares de avestruzes sem serem aproveitados em suas propriedades, tiveram uma ideia diferente para ganhar dinheiro com os animaizinhos: nasceu assim uma peculiaridade de Oudtshoorn que são as visitas turísticas às fazendas de avestruz. As fazendas abriram suas portas para o turismo, oferecendo visitas guiadas onde você conhece um pouco da história da fazenda, aprende sobre os avestruzes, dá comida para os bichinhos (experimenta carne de avestruz...) e por aí vai. São milhares delas na região onde você pode fazer sua visita guiada, bem no estilo da região da rota dos vinhos, só que lá no caso, é a rota dos avestruzes hehehe. Com milhares de opções para se escolher, pesquisamos bem, já que como sabem, somos totalmente contra esse tipo de turismo de exploração animal, e decidimos visitar a Cango Ostrich Farm, por esta ter sido a primeira fazenda que proibiu que os turistas "montassem" nos avestruzes. Esta prática altamente condenável e que trás sequelas terríveis para os bichinhos, hoje é proibida, mas na época, essa fazenda foi a primeira e por muito tempo única a não permitir tal tortura aos avestruzes, então não foi difícil decidirmos que visitaríamos essa.

Quanto à cidadezinha, achamos ela muito charmosa. A ruazinha principal, cheia de restaurantezinhos, muitos oferecendo carne de avestruz, é muito simpática, além de ficar ao redor de montanhas muito bonitas, ficamos morrendo de remorso de não termos dedicado pelo menos uma noite pra lá.

Chegando na fazenda, aguardamos uns minutinhos para começar a visita guiada. Essas visitas são bem rápidas, menos de 15 minutos, e ocorrem o dia todo, então não é necessário reservar nem nada, só chegar. Quando chegou nossa vez, éramos os únicos esperando, então fizemos mais um tour "privativo". O tour na Cango Ostrich Farm, funciona da seguinte forma: a primeira parte do passeio, o guia nos leva a uma sala que parece uma capela, e nos conta um pouco sobre a história da fazenda e sobre os animais. Mostra alguns exemplares das antigas roupas de penas de avestruz tão desejadas pelos europeus e que foi responsável pela expansão do animalzinho na região. É bem impressionante, pois as penas são afiadas e parecem até lâminas de metal, muito bonitas.

Depois somos apresentados aos ovos de avestruz, que possuem uma grande peculiaridade: são fortes pra burro (caríssimos também, podendo chegar a R$ 300,00 um ovo)! Para demonstrar isso, o guia nos pede para subir em cima dos ovos, nós dois ao mesmo tempo, para mostrar que não tem mesmo como quebrar eles!

Os inquebráveis ovos de avestruz

Depois dessa introdução, somos então finalmente apresentados aos bichinhos. Somos levados ao local aonde eles são criados mesmo e dá pra ter uma noção da vida que eles levam ali.

Muito simpáticos


Apesar de aparentarem ser bem simpáticos, nos é explicado que o avestruz é um animal bem violento e nada amigável. Que qualquer sinal de se sentir ameaçado ele revida com bicadas e chutes! Sendo assim, a única forma de interagir com ele é dando comida hehehe. Dessa forma, para podermos dar "um abraço" no avestruz, o guia pega um balde de comida e põe nas nossas costas, só para o bichinho esticar o pescoço e fingir que está nos abraçando (baita interesseiro)...

Fazendo amigos


Depois ele coloca o balde de comida no nosso colo e pede pra ficarmos de costas pros avestruzes, próximo a cerca que nos separa deles. Daí é dele levar pescoçada e bicada dos bichinhos, o que eles chamam de "massagem do avestruz"...

Bem "carinhosos"

Terminada a "massagem", já encerra-se o tour e somos direcionados à lojinha de souvenires (normal né), uma lojinha com uns produtos bem "duvidosos", e caros...

Souvenires da lojinha bem de gosto duvidoso

Como dito, o passeio é bem rapidinho, mais para ter uma noção de como funciona este tipo de fazenda e levar umas bicadas de avestruz mesmo.

Se aproximando do meio dia e como a próxima atração do dia era seguindo pela mesma rodovia, a R328, resolvemos aproveitar para almoçar na própria fazenda, no restaurante que tem lá e também aproveitar e experimentar a carne de avestruz! A Juju não quis encarar e pediu um frango frito, enquanto eu não deixei passar a oportunidade de experimentar essa iguaria. Não achei nada demais, um gosto de carne vermelha normal, nem macia nem dura, até nem sei se o que comi foi carne de avestruz mesmo, podem ter enganado o turista trouxa hehehe.

Carne de avestruz com fritas no prato de cima


Depois do almoço, de lá seguimos na direção norte, mais uns 15 quilômetros até as Cango Caves, numa subidinha bem considerável mas, como sempre, numa estrada toda asfaltada e impecável.

As Cango Caves são a segunda maior atração de Oudtshoorn. Trata-se de um complexo de cavernas subterrâneas formadas por calcário pré-cambriano situado na chamada faixa de Swartberg e estima-se que possuem mais de 4 quilômetros de extensão.

De acordo com alguns artefatos e pinturas encontradas nas cavernas, estima-se que elas foram habitadas a mais de 80.000 anos atrás pelo povo Khoisan da região, mas foi somente em 1780 que um fazendeiro holandês local descobriu a primeira câmara da caverna, do tamanho de um campo de futebol. Com o passar dos anos mais e mais exploradores começaram a desbravar a caverna, se tornando um lugar bastante procurado por espeleologistas e com novas descobertas sendo realizadas até os dias de hoje. Hoje, 4 quilômetros dela estão mapeados e abertos para visitação turística, embora estima-se que ela seja muitas vezes maior do que isto.

As visitas ocorrem de forma guiada, diariamente mais ou menos de hora em hora, portanto assim como as fazendas de avestruzes, não é necessário comprar o ingresso e reservar com antecedência. São dois tipos de visita: a heritage tour (o tour light) onde se visita o primeiro quilômetro da caverna que é bastante aberto e com escadas para acessar alguns pontos; e a "para aventureiros" onde é necessário usar equipamento de proteção e literalmente rastejar por fendas e túneis fechados, altamente não recomendado para pessoas claustrofóbicas e não possível dependendo do tipo de corpo da pessoa.

Mostruário demonstrando o tamanho real de algumas partes da caverna no tour "para aventureiros"


Como estamos longe de sermos "aventureiros" e sofro um pouco de claustrofobia (além desse tour ser mais caro hehehe), escolhemos fazer o tour padrão, que tem o plus de ser um tour educativo e histórico, já que se aprende um pouco da história da caverna e da região. Outra curiosidade é que são realizados tours turísticos desde 1891, fazendo das Cango Caves a atração turística mais antiga da África do Sul e o primeiro sítio de conservação ambiental do país.

Chegamos no local e pegamos uma fila considerável, tendo que esperar o próximo grupo para fazer a visita, o que foi bom pois pudemos relaxar um pouco e apreciar a vista do centro de visitantes na entrada da caverna que é bem bonita, uma região cheia de morros, além do local contar com um bar e um pequeno museu.

Sala de espera das Cango Caves


Chegada a hora de inicio do nosso tour somos chamados pelos guias e primeiro entramos no salão principal do lugar com apenas as luzes de emergência acesas. A guia então, naquele salão lúgubre, começa a contar a história das Cango Caves, sua geologia, fala dos povos originários que a habitavam e como os colonizadores a descobriram já no século XVIII.

Na entrada da caverna, num primeiro momento, somente as luzes de emergência ficam acesas


Antes de acenderem definitivamente a iluminação do local, são apagadas todas as luzes da caverna mesmo, incluindo as de emergência, ficando todo o lugar num breu total, não sendo possível enxergar nem um palmo a nossa frente. A guia então acende um isqueiro que não faz quase nenhuma diferença naquela escuridão e diz: "viu? Eram assim as condições que o primeiro fazendeiro explorou as Cango Caves." Muito legal! Outro motivo pelo qual dizem que o povo Khoisan não conseguiu ir além do saguão principal na exploração do local foi exatamente este: a falta de luminosidade natural.

Quando finalmente ligam-se as luzes da caverna, todos soltam aquele "Uaaaaaauuuu". Muito impressionante as estalactites (formações calcárias que se formam do teto) e estalagmites (formações calcárias que se formam do solo) de mais de 3 mil anos todas iluminadas. As luzes são coloridas e posicionadas estrategicamente para dar aquela favorecida na estética, o que deixa tudo ainda mais interessante. Infelizmente, nossas câmeras não possuem uma boa resolução no escuro.

Iluminação temática, bem bonita


Tem várias dessas formações que surgem no teto e chegam até o chão, comprovando o tão antigas que são já que as estalactites crescem de forma muiiitooo demorada.

Estalactites (ou seriam estalagmites?)


Dali do saguão principal seguimos conforme guiados pelo atendente por outras galerias bem impressionantes. Todo o caminho é demarcado no chão ou realizado através de plataformas, de muito fácil acesso.

Bonitas galerias visitadas no heritage tour


Um dos destaques desse tour básico lá dentro é a Devil´s Kitchen, a galeria mais próxima da superfície, com umas "esculturas" bem impressionantes e que ao fundo possui um poço que desce 20 metros em uma câmara cheia de água.

Devil´s Kitchen


Vimos alguns morcegos também, mas bem "tímidos", não chegam perto dos turistas.

O tour termina em mais ou menos uma hora, que passa bem rapidinho... Vale muito a pena quem estiver fazendo a Garden Route dar uma passada por lá.

Terminado o tour, começamos então nossa jornada rumo à cidade de Knysna, a 148 quilômetros das Cango Caves, nossa próxima parada na Garden Route.

Knysna é considerada uma das paradas obrigatórias da Garden Route (embora não tenhamos achado ela muito atrativa não). A parte "urbana" da cidade, conhecida como Knysna Central, é bem pequena (e elitizada), podendo ser percorrida toda a pé numa tarde.

Mapa da pequena cidade de Knysna

A grande atração fica nos arredores, nas trilhas e parques em meio a natureza. Mas o grande diferencial mesmo são as "Knysna Head´s", uma abertura no meio de duas formações rochosas que é o ponto onde o oceano "entra" na cidade, formando a Knysna Lagoon, lagoa que banha a parte central da cidade e que possui algumas ilhas habitadas. Como trata-se de dois morros, um de cada lado do ponto onde o mar encontra a lagoa, simulando como se fosse um "portão" para a cidade, o local foi batizado de "head´s", sendo a oeste e a leste, ambas contando com diversos "viewpoints" proporcionando vistas espetaculares para o mar aberto e que são o principal cartão postal da cidade.

Escolhemos Knysna para dar uma "pausa" na nossa Garden Route, ficando pelo menos 2 dias na cidade a fim de dar uma desacelerada e resolver algumas questões "burocráticas" como lavar roupa e levar o carro na lavagem na tentativa de dar uma amenizada nas marcas do acidente (tirar a grama e a terra encrunhada nas rodas). Confesso que a cidade é legalzinha mas não merecia duas noites não, trocaria por um dia em Mossel Bay ou Hermanus, mas, naquela altura da viagem, tínhamos que fazer uma pausa de qualquer jeito. Havia duas opções de hostel na cidade, os dois com o mesmo preço (35 reais a noite) e boas avaliações, então optamos pelo Jembjo´s Lodge Backpackers, que ficava mais próximo do waterfront. Chegamos no hostel quase no fim da tarde e fomos muito bem recebidos, num hostel muito confortável e com instalações bem aconchegantes.

Só descarregamos nossas mochilas e já saímos pra desbravar (sedentos para conhecer um lugar novo, como sempre né hehehe), primeiro indo até o supermercado comprar coisas pros próximos cafés das manhãs, já que pra variar, tudo fecha super cedo. Depois se dirigimos até o Waterfront, que é a principal atração turística da parte central de Knysna.

O Waterfront de Knysna segue o mesmo padrão do V&A Waterfront da Cidade do Cabo, (mas em beeeeem menor escala) um cais revitalizado transformado em atração turística contendo diversas lojinhas de roupas, souvenires e restaurantes, quase todos de alto padrão, sendo assim o principal ponto de encontro da minúscula cidade.

Waterfront de Knysna

Além do tamanho, o que difere também da versão de Cape Town é que esse pier não fica na beira do mar e sim na Lagoa de Knysna, com acesso ao mar pelas Knysna Head´s. Também não possui roda gigante hehehe. Apesar de tudo meio caro pro nosso gosto, achamos o píer bem simpático e agradável de passear, melhor ainda que o de Cape Town por ser mais "aconchegante" e não ter tanta gente. Com uma decoração bem bacana ainda com as bandeirinhas de diversos países e aqueles postes que indicam distâncias para diversas cidades do mundo que são bem característicos de lugares turísticos.

Bonita decoração do Waterfront de Knysna. Na última foto, dá pra dar uma conferida nos preços de um dos restaurantes do local


Também descobrimos sobre o Bondi! Um Buldogue que é (era) o cãozinho mais famoso de Knysna e que possui uma estatua em sua homenagem lá no Waterfront, além de painéis que contam um pouco de sua história:

O cãozinho Bondi foi dado como presente em 1928, pela cidade de Maputo (Moçambique) para os tripulantes do navio Cargueiro inglês H.M.S. Verbena, navio muito famoso e ativo em toda a costa sul-africana no período, se tornando o mascote da tripulação.

Em 1931, numa das tantas visitas do navio à Knysna, na qual a tripulação estava escalada para fazer uma apresentação musical na cidade, a tripulação ancorou na ilha Thiessen, uma das ilhas que ficam na lagoa de Knysna, e foram caminhando morro acima até o local onde seria realizada a festividade. Dizem que o cãozinho Bondi, não querendo ficar para trás, seguiu a tripulação pelo caminho mas, como fazia muito calor, ele não resistiu e veio a falecer de insolação. De tão querido não só pelo H.M.S. Verbena, mas por toda a frota marítima inglesa, foi construído um memorial no local de sua morte e virou uma tradição todo navio inglês que passasse por Knysna, deslocar uma equipe da tripulação para polir a lápide e aparar a grama do local para mantê-lo sempre conservado.

Infelizmente, com o advento da segunda guerra mundial essa tradição foi suspensa e o memorial do cãozinho Bondi foi perdido. Somente nos anos 2000, por intermédio da Sociedade de História de Knsyna, foi construído um novo memorial e reavivada a tradição das homenagens pela marinha sul africana, inclusive realizados alguns festivais e concursos tendo Bondi como tema. No Waterfront, a estátua em sua homenagem é ligada à Sociedade de Cuidados de Animais de Knysna, tendo ao seu lado uma urna para arrecadação de fundos para a organização.

Estátua em homenagem ao cãozinho Bondi


Ficamos até a noite no Waterfront e de presente conseguimos apreciar um belíssimo pôr-do-sol atrás das montanhas que separam Knysna Central do mar aberto.

Bonito pôr-do-sol no Waterfront de Knysna


À noite, meio cansados já da agitação do dia todo e sem muita vida noturna na cidade mesmo, jantamos no hostel uma porcarias que havíamos comprado no supermercado e já se recolhemos.

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